Junho

Junho [o de Portugal, de Camões e das Comunidades]. Eles tinham o sonho. Ou pensavam que tinham, no momento de embarcar para um qualquer lugar do mundo onde a vida se fazia mais mansa.

 

«Eram de várias Terras

conduzidos,

Deixando a pátria amada

e próprios lares »

(Luís de Camões,

Os Lusíadas, Canto III, 24)

 

E iam. Com a saudade tatuada no peito, mas com a vontade acesa e os braços prontos para trabalhar. Quem vinha, contava que havia mundo para além das paredes pesadas da ilha e que, para além do risco azul do horizonte, moravam possibilidades de ser feliz. Levaram nos olhos o tamanho das montanhas para onde regressariam, um dia, capazes de construir a sua casa, de organizar o seu negócio, de mostrar que valia a pena ter a coragem de abandonar a concha e de partir.

Às vezes, voltavam. Para ficar. Com a missão cumprida. Outras vezes, não. Foram ficando à espera de mais, foram construindo, lá fora, outros ninhos, plantando, em outros chãos, as suas raízes.

Mas,

O tempo cobre o chão de verde manto,

que já coberto foi de neve fria,

e, enfim, converte em choro o doce canto.

Luís de Camões, Sonetos

E a vida muda tudo. Ou a incapacidade de amor. Ou a “glória de mandar”, a “vã cobiça”. Hoje, à beira do 10 de junho, temos o coração lá fora, com os que, neste momento, se perderam dos seus sonhos, se perderam da esperança e se confrontam, todos os dias, com a falta de tudo, com a ameaça da morte, com o medo. Estamos hoje, na Venezuela, como já estivemos em outros lugares onde o sonho se escondeu… Queremos muito mostrar o nosso respeito por todos os que lutam pela paz. Queremos muito dizer que não estão sozinhos. Queremos muito confiar que o sonho há de regressar, outra vez.

Eles tinham o sonho. E foram. Se for preciso voltar, saibam que estamos prontos: a cama está feita, a mesa está posta, há de haver sopa para mais um.