Olhai os jacarandás em flor

O Duarte Caires – não eu, mas o outro – é um tipo triste e mau por herança genética. Ele sabe que o mundo é um lugar perigoso e que os homens estão destinados a matarem-se uns aos outros, a comerem-se vivos, a destruírem-se por dentro e por fora até não sobrar nada, nem ar para respirar, nem solo para pisar, e pelo caminho vão substituindo sonho por ambição, inocência por ouro, nudez por aparência – é este o destino dos homens.

O gajo costuma dizer que noventa por cento da humanidade sofre de doenças mentais e não há remédio que as cure, ao passo que uma parte da restante percentagem tem de tomar alguma coisa para manter a cabeça no lugar – pastilhas, vinho, poesia – algo forte que a faça sentir o tempo e o espaço da sua existência, os pés na terra. Os poucos que vivem ao natural – e poucos aqui ainda são milhões –, são os que mais padecem e, como tal, os verdadeiros loucos. Ou seja, não há volta a dar.

Na crónica da semana passada escrevi que a paisagem mais bonita para um ser humano é outro ser humano. O Duarte Caires ficou estuporado com esta conversa e insultou-me todos os dias, dia e noite, até ontem, dizendo que a beleza do ser humano é uma falsidade, um logro, um tremendo embuste, porque cada um de nós é o diabo em potência para o outro.

Pareces um burro a pensar, disse-me ele. É óbvio que o diabo somos nós. É óbvio que o diabo veste Prada como outra marca qualquer sem fama nem valor; é óbvio que o diabo conduz o carro da moda mais caro como também anda a pé com os sapatos rotos e até mesmo descalço; é óbvio que a derrota do teu melhor amigo tem na boca da tua alma o mesmo sabor da vitória do teu pior inimigo. Pareces mesmo um tonto a olhar em frente, disse-me ele. Estás sempre a confundir kalashnikovs com margaridas, a transformar disparate em arte, a elevar dívida à categoria de riqueza, para já não falar da cobardia como virtude, da miséria como oportunidade, da doença como renascimento.

Sabes, disse-me ele, somos todos feios e nojentos e sofremos muito por isso. É simples: com mais ou menos sorrisos, com mais ou menos lágrimas, somos todos feios e nojentos, sofremos todos da mesma dor e vamos morrer sem dizer adeus a ninguém. A memória é talvez a única coisa bela que possuímos, porque nos remete para o que já não existe, não importa se bom ou mau. O problema é que ela também nos condiciona através do remorso, da desilusão, da descrença, da saudade, pelo que vamos ficando cada vez mais supersticiosos ou niilistas ou conformistas. E, neste estado das coisas, tudo é possível, a começar pela loucura geral, como bem se vê.

O filho da mãe não se calava, estava a sufocar-me, sempre a desfiar horrores e terrores, a gastar o meu oxigénio com as suas palavras, cínico e cáustico, a gozar comigo sem piedade, a dizer assim: O problema, meu amigo, é que eu não tenho estudos. Tudo o que digo carece de fundamentação científica e académica. São dizeres que não valem nada. Mas quando ouvires alguma sumidade falar o mesmo por aí, lembra-te de mim, lembra-te de mim. Entretanto, dizia ele, procura ser feliz na tua condição de algoritmo do sistema capitalista. É o melhor que há. Mesmo quando não te ligam nenhuma e só querem que sejas útil, que marques o ponto e rendas dinheiro, beneficias sempre da sensação de ser livre. Olha que isso é coisa rara, é quase liberdade pura.

Enfim…

Era eu sozinho a tomar um copo num bar na zona velha da cidade, a falar comigo como um maluquinho, pensando que, de facto, o Duarte Caires – não o outro, mas este que vos escreve – é um tipo bom e alegre por herança genética. Ele sabe que o mundo é um lugar esplendoroso e que o destino dos homens consiste no amor, na partilha e na redenção. É nisto que ele acredita. E acredita mesmo, podem ter a certeza. O gajo até costuma dizer que os pormenores tornam a existência fascinante, fascinante, fascinante…