A caverna da bomba atómica

Quando eu era pequenino, costumava ficar angustiado com o enredo de alguns filmes e séries de televisão e fugia da sala nos momentos mais difíceis, com a desculpa de ir à casa de banho. Não queria dar parte de fraco perante o sofrimento dos personagens, mas em certas ocasiões o aperto na garganta era tão forte que, se continuasse a assistir, haveria de esvair-me em lágrimas. Isso não podia acontecer. Estavam lá a minha irmã, um ou outro vizinho da mesma idade, os meus primos mais velhos, a família quase toda. Chorar seria uma vergonha de todo o tamanho.

– Vou fazer chichi – dizia eu, mas com muito esforço para ninguém notar o tremor na voz.

Sozinho, longe do som e das imagens, tentava controlar a emoção, respirava fundo, esperava um pouco e quando voltava o pior já estava consumado e resolvido.

Havia sempre alguém que dizia:

– Perdeste a melhor parte.

E eu suspirava de alívio.

Foi assim com o Marco, meu grande herói, quando ele iniciou a caminhada final ao encontro da sua querida mamã e padeceu tanto e tanto antes de a abraçar lá nos confins da Argentina. O mesmo se passou com Miguel Strogoff, o mensageiro do Czar, quando o tentaram cegar com um punhal em brasa, no decurso daquela longa e árdua viagem até Irkutsk, na Sibéria. Pior ainda foi a execução de Janosik, o imponente salteador eslovaco que roubava aos ricos para dar aos pobres, precisamente no último episódio. Enforcaram-no, meu Deus! Mas eu não vi a cena. Estava na casa de banho a chorar.

Os miúdos, desconsolados, diziam:

– O rapaz morre no fim.

Era o mais triste que podia acontecer num filme.

Eu ficava ali de coração esmagado a ver as letras a passar e a música do adeus que as embalava trazia-me de volta as cenas mais felizes da história, quando tudo se encaminhava para o bem, para a vitória, para a vida, quando nada fazia prever um desfecho tão trágico e amargo. Sim, a música avivava o lado bom, o lado do amor. Juntos – música e amor – eram mais fortes do que a soma de todos os horrores.

Naquela época de inocência e prodígio, algumas notícias no telejornal também me inquietavam sobremaneira e provocavam-me insónias tremendas, pesadelos sombrios, suores gelados. Eu sentia-me desarmado, perdido, amedrontado perante o caos e a violência do mundo, mas não me lembro de alguma vez ter fugido da sala para evitar as partes mais horríveis dos factos. Se, por um lado, a ficção me desfazia, por outro, a realidade fortalecia-me.

Às tantas deixei de me surpreender com as extravagâncias do ser humano, de modo que agora tudo me parece normal. A meu ver, a natureza do Homem não mudou nada ao correr dos séculos, rigorosamente nada, tal como também não mudou a do cão, por exemplo, que ladra hoje da mesma maneira que ladrava na antiguidade ou na idade das trevas.

No terceiro milénio depois de Cristo pode tudo ser e parecer mais justo, mais preciso, mais eficaz, mas na hora da verdade, na hora certa, o nosso grau de desumanidade permanecerá inalterável, brutal, sanguinário como de costume. Quem tiver dúvidas que ligue a televisão e chore se não aguentar, chore com alma, chore com hipocrisia, chore pela primeira vez, chore pela última vez, chore, chore, chore. Não faz mal. Seja como for, haverá sempre música e amor, sim, haverá sempre música e amor, mesmo na caverna da bomba atómica, mesmo se o rapaz morrer no fim.

Da minha parte, tenho de ir agora à casa de banho…