A importância de acreditar em anjos

A brincar a brincar eu dizia aos miúdos, em África, que era um vampiro e eles acreditavam, tal como a brincar a brincar me fizeram acreditar, em miúdo, que os vampiros eram originários da Europa. Volta e meia, quando via os alunos saturados do Português, ensonados, maçados de morte, perdidos no abismo da gramática, baralhados entre a sintaxe e a classe das palavras, sem perceber para que diabo servia tudo aquilo, eu interrompia a lição e contava qualquer coisa para os despertar. Por exemplo:

– Vocês já ouviram falar em vampiros?

Eles punham-se logo atentos, uns a dizer que sim, outros que não, alguns já com medo do que vinha a caminho, vários cheios de curiosidade, a pedir mais conversa com os olhos cintilantes. Então eu explicava tudo o que sabia sobre a matéria, tal como aprendi nos livros e nos filmes a preto e branco da minha infância e depois nas inúmeras variações coloridas que se fizeram e continuam a fazer. Pelo meio, acrescentava coisas, dizendo que nem sempre lhes saía apenas dois incisivos para morder incautos e saciar a fome, havendo deles que deitavam para fora um número indeterminado de dentes, podendo ser dois ou três de cada lado, ou mais ainda, às vezes até vinha a dentadura inteira.

E, por fim, rematava:

– Eu sou um desses vampiros.

Os miúdos ficavam fascinados.

– O stôr tá a gozar! – Diziam em coro.

– Não estou, não!

E, para que não ficassem dúvidas, predispunha-me a dar prova da minha verdade, pedindo-lhes que prestassem bem atenção à minha boca.

Ficavam todos a olhar fixamente para mim.

Devagar, devagarinho, com a ajuda da língua, eu deslocava a prótese esquelética, fazendo sobressair os dentes, dois do lado esquerdo e um do lado direito, tal como acontece com os vampiros na vida real.

Um burburinho percorria a sala e havia sempre alguém que dizia:

– O stôr por acaso não nos vai atacar?!

E eu:

– Claro que não. Mesmo que quisesse, não podia. Isto só funciona à noite. Se morder alguém durante o dia, parto logo os dentes. São fracos como o giz à luz do sol.

A seguir escrevia no quadro qualquer coisa relacionada com o assunto, por exemplo: Os dentes dos vampiros são frágeis durante o dia. E desafiava-os:

– Vamos analisar esta frase tintim por tintim.

Outras vezes, quando estava sem a prótese, porque me tinha esquecido de a colocar ou coisa assim, visto que ela só tem efeitos em termos de vaidade, para compor o sorriso e pouco mais, havendo ocasiões em que não me ralo nada com isso, inventava uma narrativa diferente, dizendo a outro grupo de alunos, noutra sala, que tinha sido vampiro há muitos anos, lá na minha terra distante, mas não gostava nada de sair à noite, nem de atacar pessoas, nem de beber sangue, ficava enjoado com o sabor e o calor do sangue, era horrível, e então para resolver o problema fui a um dentista e pedi-lhe que me arrancasse os dentes, estão a ver, após o que abandonei a vida de vassalo do conde Drácula, tornei-me vegetariano e viajei para África para esquecer o passado.

– O stôr tá a mentir!

Eu contra-atacava:

– Esse é um bom verbo para analisarmos.

A certa altura, a história do vampiro esgotou-se, mas a brincar a brincar a magia nunca se perdeu na sala de aula. Volta e meia, quando percebia que os alunos estavam maçados de morte com o Português, saturados, ensonados, perdidos no abismo e no absurdo das letras e da gramática, sem perceber para que raio servia tudo aquilo, eu suspendia a lição e dizia qualquer coisa para os acordar. Por exemplo:

– Vocês acreditam em anjos?

E assim sucessivamente…