Noturno africano

O gajo não gostava nada do lugar nem do ambiente onde estava. Isso era evidente. Aos sábados de manhã, ficava a observar o padre principal a fazer confissões na varanda da secretaria. Media-as no cronómetro do telemóvel. As confissões duravam entre dez e vinte segundos. Eram umas atrás das outras, até gastar a fila dos pecadores e o sentido da coisa. Até dava vontade de rir. Por vezes, enquanto absolvia com a mão direita, desenhando uma cruz no ar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, o padre segurava na mão esquerda um maço de notas, para pagar aos trabalhadores da carpintaria, quando saíssem ao meio-dia.

Volta e meia eu ficava também a apreciar o espetáculo, sentado ao seu lado.

– Isto é incrível! – Murmurava ele.

– Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita – ironizava eu.

Tínhamos acabado de chegar a África, professores voluntários numa missão católica no interior de Moçambique, já lá vão mais de dez anos. Ele tinha medo de ser apanhado naquela teia de espantos, mas ao mesmo tempo queria senti-los sem freio.

Costumava sair descalço para ir comprar cigarros no mercadinho da estrada, os pés alvos enfiados na terra batida, provocando grande espanto em toda a gente. Um branco descalço! Era coisa rara, quase absurda, de fazer abrir muito a boca e os olhos. Um dia, ao almoço, os padres disseram-lhe que andar descalço na rua era considerado uma ofensa à população, sobretudo à população mais pobre.

– Aqui só anda descalço quem é mesmo miserável – explicaram-lhe.

Ao que ele respondeu, com inesperada brusquidão, que andava descalço porque lhe apetecia e ninguém tinha nada a ver com isso, nem os miseráveis, nem os ricos, nem os padres e, penso eu, esteve prestes a acrescentar nem mesmo a puta que os pariu a todos.

Um dia o gajo disse aos padres que achava impossível que eles tivessem criados e empregados para tudo e mais alguma coisa. E os padres, exibindo os seus sorrisos complacentes e matreiros, como quem está perante uma criança ou um ignorante, lá explicaram que andavam sempre ocupados, cheios de tarefas importantes, não tinham tempo para o resto.

Ele encheu-se de um cinismo atroz e retorquiu:

– Nem sequer para dar missas ou fazer confissões.

Os padres desfizeram imediatamente os sorrisos e ficaram estuporados.

O cabrão do português! – Terão pensado. Olha lá o cabrãozinho do português!

No decurso de uma aula – contaram-me os alunos mais tarde – fez uma intrincada e incompreensível exposição sobre o petróleo e a economia mundial e acabou afirmando que África é dos Africanos, querendo dizer que, pessoalmente, se sentia a mais ali. Os miúdos ficaram super entusiasmados com a ideia. O branco está farto de África! – Diziam, felizes. O branco está farto de África!

Ao cabo de dois meses o gajo tornou-se mais estranho do que já era. O rosto assumiu uma expressão definitivamente dura e funesta. Quase não falava e a sua presença era cada vez mais rara e esquiva. Fora da escola, passava o tempo fechado no seu quarto e quando defecava, o que era um grande acontecimento, pois sofria de prisão de ventre, punha-se a investigar as fezes com um pauzinho de bambu.

Uma vez disse-me que tinha encontrado uns bichos esquisitos, mas felizmente pareciam estar mortos.

– Não seria bom ires ao hospital? – Sugeri-lhe. – Por causa desses bichos…

Ele respondeu:

– Claro que não!

Volta e meia o gajo dizia-me que tinha a sensação de estar num parque de campismo e, olhando para o fundo, imaginava uma praia atrás dos eucaliptos e muito lhe apetecia ir lá dar um mergulho. E depois desatava a caminhar à toa, com uma passada sempre igual e trejeitos de autista, como se se dirigisse para essa praia imaginária.

De repente, no sábado da Aleluia, desapareceu sem dizer nada a ninguém…