O casal perfeito no seu labirinto

Ao contrário do marido, D. Eugénia é magrinha e alta, muito mais alta do que ele, de modo que juntos fazem lembrar uma ave pernalta e um búfalo lustroso vistos à distância numa paisagem africana, e quando estão na cama, como neste momento, D. Eugénia parece mesmo uma ave pernalta estendida ao lado de um búfalo lustroso, ele gordo e escuro e áspero, ela esguia e branca e franzida.

Já agora, convém dizer que entre marido e mulher não se passa nada. Nada ao nível sexual, bem entendido. Vivem juntos e partilham a cama, como se vê, mas isso resulta apenas do facto de se terem perdido no labirinto do casamento há muito tempo.

Lembram-se vagamente de terem lá entrado de mãos dadas, alegres e felizes, ele ainda muito longe de ser o senhor Búfalo, ela mais Eugénia e pernalta do que nunca, rindo e pregando partidas, como crianças a brincar num jardim, profundamente apaixonados um pelo outro e impelidos pelo desafio dos caminhos que se bifurcam, mas depois perderam-se. Contudo, tinham fé e empenharam-se em procurar a saída. Primeiro com um sorriso de canto a canto, como quem sabe que as coisas vão acabar bem. Depois, sérios e inexoráveis, como quem vê que a coisa não é nada fácil de resolver.

Rolaram anos.

Fizeram uma casa e tiveram cinco filhos dentro do labirinto, três raparigas, dois rapazes. Deram muitas festas para amigos e amigos de amigos. A família começou a crescer, ordem e desordem, noras e genros, brigas e reconciliações, netos e netas, namorados e namoradas desta gente toda e os amigos deles também, a solteira sempre azeda, o mais novo sempre desvairado, tanta luz, tanta sombra. Rolaram mais anos, rolaram décadas. Depois, fez-se noite. A noite onde ainda se encontram, sozinhos dentro do labirinto.

Nisto, o senhor Búfalo acorda e dá um grito pavoroso.

– Tiveste um pesadelo, querido – diz-lhe D. Eugénia, tentando sossegá-lo.

– Sonhei com o fim do mundo – diz ele.

De repente, tudo se transformou em nada. O nada perfeito que muita gente procura e só encontra na hora da morte, quando já é tarde de mais para desfrutar da sua maravilha. O senhor Búfalo acha-se ausente em matéria e espírito, ainda que nele persista uma certa ideia de qualquer coisa, uma ideia vaga e indefinida de não sabe bem o quê, talvez isto, talvez aquilo, uma ideia que se prolonga e alonga no tempo e no espaço até ao infinito.

Abre os olhos e diz aos berros:

– Eu sou a lei.

Porém, continua a dormir, conforme verifica D. Eugénia, que acordou estremunhada com inusitada declaração do marido e, sem querer, sentiu-se esmagada pelo peso da sua triste condição de velha desorientada no fundo do labirinto.

O senhor Búfalo abriu os olhos apenas para ver o fim do mundo dentro do sonho. A cidade onde vive – pode ser o Funchal – é agora um monte de escombros fumegante. O mar secou e parece um vale pedregoso ao entardecer. O céu está vermelho, num tom de vermelho igual ao teto do inferno e ao do primeiro bordel que ele visitou quando jovem.

Alguém o chama à atenção:

– Como pensas salvar-te disto?

Olha em redor, mas não vê ninguém. No entanto, a questão ecoa forte, veemente, ininterrupta:

– Como pensas salvar-te disto?

E foi aqui, neste preciso instante, que o senhor Búfalo despertou definitivamente e deu o grito pavoroso.

D. Eugénia procura acalmá-lo e vai dizendo:

– Ultimamente só tens sonhado com catástrofes.

O senhor Búfalo abana a cabeça que sim, velho e atontalhado, e de repente percebe que continua perdido no labirinto.