O livro da minha vida

A primeira vez que ouvi falar do livro da minha vida foi em São Vicente, no final dos anos 80 do século passado, em casa dum velho amigo. O gajo não liga nenhuma a livros, mas tem lá duas prateleiras de metro e meio carregadas deles. Comprou-os à medida, literalmente à medida, em feiras e antiquários. Não cuidou dos temas nem da língua em que estão escritos. Quis apenas que fossem velhos, para combinar com o resto da decoração. A maioria tem mais de cem anos, havendo alguns já com dois séculos. E todos custaram quase nada, diz ele.

Uma vez, naquele tempo, contou-me ter recebido em casa um grupo de amigos por altura da Festa e com eles estava um tipo do continente, que tinham conhecido por acaso numa tasca nesse dia. Entre ponchas, vinho seco e dentinhos de fígado, arrastaram-no também para lá. Diz que era alto e magro, sempre com meio sorriso pregado nos lábios, mas pouco abria a boca para falar. Ainda assim, contou que andava a viajar sozinho pelo mundo, seguindo a antiga rota dos Portugueses, e, por isso, toda a gente o tratava por “Português”, como se fosse o seu nome próprio.

A certa altura, o Português levantou-se e deu uma volta pela sala. Observou os instrumentos de lavoura que serviam de decoração e ficou pasmado a olhar para as traves rústicas do teto, como se elas segurassem o céu e não apenas o quarto de cima. A seguir, deteve-se diante da janela e contemplou a noite através da vidraça, por onde entrava um vago e longínquo rumor do mar do norte.

Acho que já contei isto uma vez. Não me lembro bem. Seja como for, volto ao assunto.

O Português apreciou o armário de vinhático e a loiça antiga, mas tosca, que estava lá dentro e sorriu diante da árvore de Natal e da lapinha, como se fossem obra de crianças deficientes. Por fim, imobilizou-se com manifesto interesse à frente das duas prateleiras de livros penduradas na parede.

– São todos antigos e originais – disse o meu amigo.

Ele diz isto a toda a gente e a mim também sempre que lá vou.

– Esse aí custou-me dois escudos na Feira da Lagartixa – disse ele, referindo-se ao livro que o Português tirara da segunda estante e estava a folhear.

Era um livrinho de capa dura preta, muito gasta e puída. O título fora impresso a ouro na lombada, mas já não era visível. As folhas amarelas e finas continham carateres de tal forma carregados que muitas deixavam passar a sombra e o relevo para o outro lado. Várias páginas tinham manchas de humidade e as pontas dobradas, em cima e em baixo, defeito que o Português tratava de corrigir delicadamente.

Estava agora sentado no sofá e mostrava um profundo fascínio pelo livro, ficando volta e meia petrificado com a leitura, o copo suspenso a meio caminho da boca, a boca entreaberta, os dentes a luzir. Isto durou uma boa meia hora, até que, de repente:

– Quanto é que você quer por este livro?

A pergunta atravessou a sala sem pedir licença e ficaram todos calados a olhar para ele.

Foi vendido por mil escudos, um valor exorbitante, dito ao acaso, como que a brincar, porque, de facto, o meu amigo de São Vicente não liga nenhuma a livros, levando o grupo a pensar em uníssono, como se o pensamento tivesse som naquela hora, que o Português era rico e simultaneamente louco.

O livro da minha vida é este.

Nunca o li. Nunca lhe toquei. Nunca o vi, sequer. Às vezes, aparece-me em sonhos e, então, eu percebo que comecei a pensar nele muito antes, quando era ainda um miúdo. Depois, a partir do fim da adolescência, pus-me a procurá-lo. Primeiro nos lugares do costume e a seguir em toda a parte, mas nunca foi uma demanda obsessiva, porque eu também não sou um leitor compulsivo. Passo semanas sem ler, meses até. Por outro lado, sou lento e sonolento. Volta e meia, porém, dá-me uma coisa que não sei explicar e leio vários livros de seguida num instante.

Depois, prossigo a busca.