Vivemos como sonhamos

Sozinhos. A frase é assim: Vivemos como sonhamos – sozinhos. É de Joseph Conrad em ‘O Coração das Trevas’, para mim um dos melhores livros de sempre. Eu acredito nisto. Tudo em mim é um negócio solitário. Sinto-o como sinto a água que bebo, a água que sou. Descontando o corpo, o resto de mim é matéria onírica. Ou seja, solidão.

– Não percebo o que dizes!

– Tás tonto!

– Isso não é nada assim!

– Estás complemente errado!

Este é o tipo de reação que obtenho dos outros quando partilho e defendo a posição. Nunca ninguém concorda comigo. Mas eu insisto:

– Vivemos como sonhamos – sozinhos.

Já o disse nos dois hemisférios, em várias épocas da minha vida, em lugares tão distantes de casa como na Terra do Fogo, no Tibete e nas montanhas da Alta Zambézia. Houve sempre muita discussão e argumentação, muita filosofia e muita poesia, muita persistência, muita existência, muitos copos pelo meio e muita gargalhada também. No fim, acabo sempre como no princípio – sozinho. E os outros também.

Uma vez, contudo, em Moçambique, contaram-me uma história por causa disto que eu achei exemplar.

Havia um gajo que, de repente, começou a viver num mundo onde não havia nada, nem tempo, nem espaço, nem movimento, nem sequer pensamento. Ou seja, ficou abobalhado. Os amigos meteram-lhe na cabeça que a mulher o tinha enfeitiçado – coisa muito comum em África – e aconselharam-no a consultar um curandeiro famoso que vivia no mato.

Era um velho esquelético, cego do olho direito, a quem chamavam Sombra, porque estava sempre a recitar esta frase em jeito de oração: A sombra do teu corpo é o corpo da tua alma. E, como uma sombra, ele assomou à porta da palhota. Agachou-se e ficou sentado sobre os calcanhares. Depois disse:

– Aproxima-te.

O homem aproximou-se e disse:

– Quero saber quem me fez mal.

O velho foi dentro e voltou com um saco de plástico preto e uma tigela com um líquido branco. Tomou um golo e soprou-o súbita e inesperadamente contra a cara do homem, que logo se sentiu humilhado, atarantado e estuporado. Depois alisou o chão com o pé descalço, meteu a mão no saco e lançou uma série de pedrinhas coloridas, ossinhos, sementes, dentes de animais e de gente, raminhos, folhas secas. Ficou a olhar para aquilo com o seu olho bom, sábio e profundo. E disse:

– A tua vida é uma gaiola.

O homem ficou desapontado e mais ainda quando o curandeiro acrescentou:

– Ninguém te fez mal.

– Como assim?! – Disse o homem.

O velho compreendeu a sua desilusão e prontificou-se para analisar melhor a situação. Mirou e remirou as coisas que tinha atirado. Murmurou palavras incompreensivas. Demorou-se. Demorou-se. A seguir foi tomado por um arrepio e disse:

– Andas a fazer mal a ti próprio.

– E a minha mulher? – Quis saber o outro.

O curandeiro respondeu com firmeza:

– A tua mulher não te fez mal.

O homem retorquiu:

– Quero ter proteção.

E o velho ripostou:

– Faço proteção contra o mal que vem de fora, não contra o mal que vem de dentro.

O homem baixou os braços, o corpo inteiro e o espírito também.

– O que devo fazer? – Perguntou.

O velho disse:

– A sombra do teu corpo é o corpo da tua alma.

Aqui, o homem ficou irritado e apeteceu-lhe estraçalhar o curandeiro, porque percebeu que aquilo era o mesmo que dizer “Vai-te embora e desenrasca-te”, mas não teve coragem de lhe fazer mal. Ainda assim, antes de se retirar, provocou-o:

– Já agora, onde é que o corpo da minha alma faz sombra?

O velho ficou calado e o homem sentiu-se feliz por isso. O orgulho começava a regressar pouco a pouco ao seu coração. Levantou-se e virou costas, mas logo ouviu a voz do feiticeiro atrás de si:

– Faz sombra na tua vida.

Eu fiquei fascinado com esta história e pensei que, de facto, vivemos como sonhamos. Não me perguntem porquê. Não sei explicar. Seja como for, estou sempre sozinho quando sonho. Aqui ou no fim do mundo.