A fé duma pessoa

Quanto estavam todos vivos, o mundo era quase perfeito e havia dias em que era mesmo perfeito. Eu acordava com as vozes da minha mãe e das minhas tias no quintal, em súbita discussão sobre temas fraturantes da família, falando todas ao mesmo tempo, e, apesar da algazarra, sentia-me feliz e seguro como nunca mais aconteceu. Se fosse sábado, acordava com os ruídos do trabalho do meu pai, que procedia a mais uma ampliação na casa, obra que durou toda a sua vida, mas nunca ficou concluída, e sentia-me protegido e amparado ao som do serrote, do martelo, da enxada, de todas as ferramentas em ação.

Às vezes, acordava com o canto intrincado das toutinegras, ou com o coaxar sinfónico das rãs, ou com o cachorro a ladrar ao pé da janela e sentia-me aconchegado e cheio de esperança, sempre tão aconchegado e cheio de esperança até mesmo no inverno, quando sobre a ilha se abatiam violentas tempestades sem nome e a água corria com fúria na ribeira e o vento louco derrubava árvores e arrancava chapas de zinco e o medo do fim do mundo tomava conta da minha alma sem espaço para mais nada.

No verão, durante as férias grandes, era costume acordar com o megafone no carro duma lavandaria, cujo nome não me lembro, mas sei que ficava na Rua 31 de Janeiro, que percorria as zonas altas a recolher e a entregar roupa e a publicitar o serviço, ou então acordava com o pregão do vendedor de peixe, que vinha de mota e dobrava o Jamboto a dizer “atum, cavalas e chicharros” e sentia-me sereno e bem-aventurado como se tivesse acordado no paraíso.

O mesmo acontecia aos domingos, quando despertava com o sino a tocar no decurso da primeira missa na Visitação e ouvia a minha mãe dizer:

– Estão a levantar Deus.

E eu, ali metido na cama, tentava imaginar as pessoas na igreja a pegar em Deus e a erguê-lo, um senhor muito velho e diáfano, mas nunca consegui obter uma imagem precisa da cena, até porque me despistava com outras coisas, o cheiro do café, o cheiro do pão, o cheiro da minha mãe que se aproximava. Quando era dia de festa, colocavam uns altifalantes no exterior e eu ficava encantado com as raparigas em coro assim: Pela manhã as aves cantam, ação de graças ao nosso criador. Ou salvador, já não me lembro.

Depois, quando ainda estavam todos vivos e o mundo continuava a ser quase perfeito, chegou o tempo das dúvidas e da filosofia, chegou o tempo da poesia e do princípio da solidão, chegou o tempo do descaminho e das primeiras encruzilhadas à saída da inocência.

Os debates em casa eram particularmente intensos no Natal, na Páscoa e na Imaculada Conceição. Eu e a minha irmã contra a mãe, as tias e as primas delas, a querer esclarecer o absurdo daquelas histórias, perguntas e mais perguntas sobre a virgindade de Maria, sobre a ressurreição de Jesus, sobre o menino que nunca cresce, sobre o homem que nunca morre, sobre a complicação da Santíssima Trindade, três, dois, um só. Mas que raio vem a ser isto?! Os anos a passar. Elas a citar padres famosos, nós a citar autores obscuros. Para já não falar da confissão e do perdão dos pecados por interposta pessoa. Não é possível. Não faz sentido. As coisas não podem ser assim. Deus não é bom da cabeça.

De repente, a minha mãe punha um ponto final na discussão:

– Isto é assim porque é assim!

E, em suspiro esbaforido, rematava:

– Estes pequenos tiram a fé duma pessoa!

Na altura, a fé parecia-me coisa de somenos importância. Agora sei que não, porque não a tenho.