A tua mãe não te chamou

O miúdo atravessa o poio de semilhas a correr de braços abertos e para na beira do socalco sempre de braços abertos. Visto à distância, parece um espantalho. E não é o seu corpo uma estaca seca, as suas mãos e a cabeça feitas de palha e o corpo imóvel constituído para assustar quem ao longe o vê e pensa que é um ser humano? Carne e osso e sangue no lugar da estaca seca e também nas mãos e na cabeça e nos olhos pasmados a contemplar o céu e na boca aberta perante as nuvens de verão. Ele deixa-se cair no chão, assim de braços abertos, para as ver melhor. Aquela ali é Inglaterra, tal como aparece no mapa da escola, pode até indicar onde fica a capital, Londres, e é tudo o que pode dizer, para já, sobre Inglaterra no mapa e no céu.

O som do seu nome vem de baixo para cima, repetidas vezes, a subir a encosta, poio por poio, percorre o campo de semilhas e penetra no fundo dos seus ouvidos como um intruso malvado. Alguém o chama desesperadamente, mesmo desesperadamente.

– Já vou! – Grita lá do alto.

E, ao mesmo tempo, repara que Inglaterra se desfaz no céu e agora é um cão enroscado a dormir nas nuvens.

Levanta-se e corre para casa. Chamam-no mais uma vez e ele volta a gritar com mais força:

– Já vou!

Vai veloz atrás do grito, em direção aos eucaliptos, na beira de um pequeno precipício, e toma a vereda que conduz à povoação. Vai pensando a correr que a mãe está cada vez mais doente e preocupada, agora até cospe sangue ao tossir, está cada vez mais branca e fraca e fria e não para de chamar por si, tem medo que lhe aconteça alguma coisa. Que coisa há de ser? É tão vivo esse chamamento, cada vez mais pesado dentro do seu coração.

Entra acelerado na parte empedrada da vereda e nota como a erva verde cresce amparada entre as pedras sem que ninguém a pise, mas também há tufos que brotaram altivos e um deles trava-o subitamente, projetando-o pelo ar e, para amortizar a queda, o miúdo lança as mãos para a frente, mas ao cair ainda rebola duas vezes no chão até ficar encostado numa parede lateral.

Abre os olhos e vê a sua casa ao longe, quieta, sossegada, como se fosse uma fantasia. Está de cabeça para baixo, no enfiamento do caminho, e observa os montes que se levantam por detrás da povoação, imponentes, mas também vazios, e vê como o sol cobre metade do casario e a sombra se alonga sobre os castanheiros do lado contrário. A tarde está tão bonita, porém morta pelo silêncio.

Uma mulher sobe a vereda devagar. É nova e linda e plangente. Ao princípio, o miúdo vê-a desfocada, mas depois a imagem fica clara. A mulher sorri-lhe como se fosse a sua mãe e está cada vez mais perto, mais perto, até que passa por ele, sempre com aquele sorriso frio e triste, igual ao sorriso frio e triste da sua mãe, e continua a subir sem olhar para trás. Nunca a vi, pensa. Não é uma mulher da aldeia. Ou será?

O miúdo tem as mãos ensanguentadas e o corpo todo a doer.

O seu nome ecoa outra vez na serra, outra vez desesperadamente. A mãe grita com vontade que vá e isso obriga-o a levantar-se e a fazer-se de novo ao caminho, deslocando-se devagar, curvado sobre a barriga, até ganhar confiança e voltar a correr. Pouco depois, atravessa a ponte de madeira sobre o ribeirinho e entra na rua principal da povoação.

A velha que mora na primeira casa está sentada na soleira e chama-o.

O miúdo para e olha. Sempre o impressionou aquela velha, de quem dizem que só fala para anunciar desgraças. Ao fundo, vê que chegam pessoas com ar aflito à porta da sua casa, olhos muito abertos, murmúrios pesados, algumas põem-se em bicos de pés, espreitam pela porta e pela janela.

A velha chama-o outra vez.

Olha para ela e novamente para o fundo da rua e começa a ficar perdido e angustiado e vira-se outra vez para a velha quase a chorar e pergunta:

– O que é, senhora?

Ela responde:

– A tua mãe não te chamou.