Beethoven: 250 anos e a Missa Solemnis

Beethoven nasceu em Bonn a 16 de dezembro de 1770. Entre os grandes nomes de músicos alemães é um dos mais conhecidos e apreciados, a sua popularidade é incontestável, qualquer homem ou mulher de cultura média, já ouviu um dos seus concertos para piano, sinfonias, entre elas a Nona, a sua vida é também muito divulgada. Era um alemão robusto, com olhos vivíssimos, mas com uma saúde precária desde a sua juventude, atingido por uma surdez que chegou a ser completa, mas dizem os seus contemporâneos que tinha uma alma forte, tenaz, muito sensível até à ternura, com muitas carências afetivas, tanto da parte de sua mãe que era uma cozinheira e morreu quando tinha 17 anos e de um pai alcoólico.

Já escrevi sobre ele há vários meses, mas não o posso esquecer, não porque eu seja grande músico, mas tive a possibilidade de ouvir as suas grandes obras em Roma, numa das maiores salas da cidade, junto do antigo Colégio Português, na Via della Conciliazione. Como Vice-Reitor e Reitor procurei sempre inculcar nos estudantes a audição de obras excelentes, por músicos italianos e internacionais.

O mais difícil para as obras de Beethoven era conseguir um bilhete, algumas horas antes de abrir a bilheteira, já havia uma longa fila de pessoas que só podiam comprar dois bilhetes. Também me levantei antes do nascer o sol, quando por causa da boa música a preferia ao sono, o povo italiano nisso dava-me o exemplo.

Beethoven era um artista que não vivia próximo das famílias ricas e aristocráticas como Mozart e Haydn, vivia do próprio trabalho que, por vezes, quem ouvia a sua música, não era os que frequentavam os teatros imperiais.

Beethoven é conhecido pelas suas obras de música sacra religiosa, dizem os seus estudiosos que o seu catolicismo consiste na sua humanidade, acreditava firmemente em Deus, procurava o valor da liberdade humana, o músico Haydn considerava-o um ateu.

Beethoven quis ser sempre um homem livre e independente, considerava a Missa Solemnis em ré maior, op.123, com coro e orquestra, como sendo a sua obra mais significativa e foi conhecida como “a missa da humanidade sofredora”. Esta obra foi escrita como oferta e em honra do arquiduque Rodolfo de Habsburg, quando foi consagrado Arcebispo, um dos familiares do nosso Beato Carlos de Áustria que repousa na igreja de Nossa Senhora do Monte. Este Rodolfo Arcebispo que conheceu Beethoven quando tinha 15 anos, esteve sempre ao lado do músico apoiando-o espiritual e materialmente. Beethoven para compor a Missa

Solemnis estudou a música religiosa do passado, reviu as obras de Palestrina, Handel, Bach, deixando traços dos estilos litúrgicos precedentes. A música é uma “súplica e fé, uma ponte sobre o abismo do desespero e uma nostalgia da humanidade reconciliada no amor e na certeza da paterna bondade de Deus”.

Escrevendo ao amigo, o arquiduque Rudolfo, Beethoven dizia-lhe: “Não há nada mais elevado que aproximar-se da Divindade mais do que aos outros mortais e por causa deste contato difundir os raios da Divindade entre o género humano”.

Segundo o pensamento de E.Herriot “a Missa Solemnis possui um acento religioso, para qualquer que seja a religião”. Na verdade, quem escuta com atenção e respeito o Kyrie, o Sanctus e o Benedictus desta Missa, “faz uma experiência religiosa que eleva até ao trono do divino o inexprimível. Esta é uma das funções da grande e sublime música, Karh Bartk, homem de grande fé, considerava a música de Beethoven uma escada para Deus. O Papa São João Paulo II ensinava que a arte, para além das suas belas expressões mais tipicamente religiosas, quando é   autêntica tem uma afinidade com o mundo da fé, a arte constitui uma espécie de ponte para a experiência religiosa com Deus.