Breve viagem ao paraíso

Estou outra vez na esplanada debaixo da sumaúma em flor, diante da praça mais bonita da cidade. Bebo uma cerveja preta e penso no paraíso. A poeira do Saara envolve a encosta que se vê ao fundo e torna a luz da tarde baça, como se este fosse outro lugar e esta outra hora, coisa que acentua ainda mais o pensamento e leva-me ao dia em que eu disse à Pat que as vacas eram animais do paraíso.

– Não tenhas medo – insisti. – É um bicho pacífico.

Ela não ficou muito convencida, mas avançou, enquanto eu permaneci sentado à sombra dum til, tal como estou agora à sombra da sumaúma, a pensar onde diabo tinha ido buscar aquela ideia. A vaca é o animal do paraíso. Devo ter lido nalgum sítio, talvez na Bíblia, ou num livro de aventuras, não sei, ou então resulta do conceito de vaca sagrada, com o qual me deparei numa viagem ao Nepal, há muitos anos, tendo ficado muito impressionado ao ver uma dessas criaturas a circular livremente sobre montes de lixo nas ruas de Katmandu, doce e serena, mas horrivelmente triste e escanzelada, como se estivesse a morrer à fome ante a indiferença de todos.

– Tens a certeza? – Perguntou a Pat, já bem perto do bicho, de telemóvel em punho para tirar fotografias.

Eu disse:

– Vai à vontade.

E, por um instante, desviei os olhos e fi-los correr pela área circundante, muito verde e luminosa, onde pastavam inúmeras vacas e pessoas também, em alegre passeio de domingo na serra, numa harmonia tão distante da que encontrara no sopé dos Himalaias.

Aqui, sim, as vacas são sagradas – pensei.

Estávamos no Fanal e, naquele momento, o Fanal era o paraíso, tal como o é hoje a Praça do Município e a sumaúma em flor, o sabor da cerveja preta e as pessoas que passam na cidade, o brilho azul do dia e este pó persistente que veio de África, o continente perdido para onde o pensamento me arrasta, à procura do paraíso – eu ando sempre à procura do paraíso, como aquele que encontrei numa pequena aldeia na margem do Lago Niassa, sem energia elétrica, sem água potável, sem nada, mas com um pôr do sol maravilhoso e a noite cheia de estrelas como nunca vi, nunca mesmo. E depois aquela gente a sorrir como se não vivesse na pobreza extrema, e as crianças a correr felizes para o bar onde acionavam um gerador à hora do jantar e ligavam a televisão durante duas horas, os miúdos todos sentados no chão, todos de boca aberta e olhos cintilantes, mergulhados na magia do ecrã, como se a inocência fosse durar para sempre no meio da miséria, dentro daquele paraíso.

Mummm.

A vaca mugiu, irritada, esbaforida.

Mummm.

E a seguir ouvi a voz da Pat, assustada, aflita:

– Amor, o que é que eu faço?

Olhei e vi o animal a avançar na sua direção, já com a cabeça baixa, quase a desferir uma marrada, e ela ali meio paralisada, com toda a sua fineza e elegância intocáveis. A Pat nunca perde a compostura. Esteja onde estiver, seja lá em que circunstância for, mantém sempre a distinção e a nobreza, acentuadas por uma lantejoula aqui na blusa, um tule ali no vestido, um pesponto inusitado acolá no sapato, e eu, um tosco oriundo das zonas altas, com dificuldade de expressão e figura de vagabundo, vendo-a assim, só consigo pensar que nasci para me casar com ela, é obvio que nasci para viver a seu lado até ao fim.

A vaca estava mesmo pronta a dar-lhe uma cornada.

– FOGE! – Gritei.

E eu também fugi, como não!

Depois, já numa zona segura do paraíso, com o bovino à distância, a Pat disse:

– Bicho pacífico, o caraças! Mentiste-me!