Lava-me porco

Aqui há uns anos, parei no semáforo que havia à saída do Largo do Pelourinho, no Funchal, ao volante do meu falecido Ford Ka, e fiquei à espera do verde para seguir viagem. O carro estava completamente sujo e pegajoso, todo coberto de pó e terra e resíduos caídos das árvores, a precisar dum banho valente há vários dias. Eu andava a procrastinar a lavagem, sem pachorra nenhuma para aquilo. A situação era de tal modo gritante que eu avisava as pessoas a quem dava boleia para terem cuidado ao entrar e ao sair, não fossem se sujar.

Um tipo vestido de preto apareceu na esquina da rua. Era novo, talvez 30 anos, e tinha aspeto de sem-abrigo em início de atividade, digamos assim, acabadinho de chegar ao meio, ainda asseado, mas já suficientemente ensebado, de passada firme e atitude algo arrogante e provocatória. Olhou para o carro e fez cara de espanto. Até parou. Depois, veio na minha direção, debruçou-se sobre o capô, passou o indicador da mão esquerda na chapa, aproximou-se da janela e exibiu-o diante dos meus olhos.

Eu fiquei a olhar para o dedo todo sujo e ele disse-me, com sotaque lisboeta:

– Tomas menos um café e lavas o carro, pá!

Eu respondi:

– Pois é, tenho andado a pensar nisso.

O gajo retorquiu:

– Mas, se preferires, dás-me o dinheiro do café e continuas com o carro assim.

Eu disse:

– Bem visto.

Ele justificou o pedido:

– O problema é que o patrão não me paga há vários meses e, neste momento, eu estou completamente descapitalizado, mesmo a precisar de um cafezinho para arejar o espírito.

Meti a mão no bolso e dei-lhe uma moeda, já com o semáforo a mudar de cor.

Tinha apreciado a conversa. O tipo era bem-falante, sem dúvida, e tudo nele fazia sentido – o sentido do abismo.

Naquela altura, tal como hoje – embora já sem qualquer ilusão –, eu queria ser escritor, vejam lá, mas debatia-me com a falta de mundo e de viagem no currículo, debatia-me com a falta de distância e de solidão na vida, debatia-me com a falta de histórias e de personagens reais no caminho, capazes de transitar para a ficção sem perderem a lógica da existência. Por isso, transformava tudo o que podia em matéria-prima para os livros que nunca hei de escrever.

Tomei nota do acontecimento num caderno, para não me esquecer. Era já a terceira ou a quarta ocorrência que tinha anotado naquele caderno, devido ao potencial de crescimento ficcional que apresentavam. O meu objetivo era transformá-las mais tarde em contos ou novelas, porque naquela altura eu acreditava mesmo que seria capaz de escrever a alma humana de uma forma única, como nunca se viu. Um gajo, quando sonha, não tem limites – já se sabe; mas quando executa, morre todos os dias. Eu, pelo menos, morro todos os dias. Os outros, não sei.

Seja como for, o caderno andava sempre dentro do Ford Ka.

Um dia, não muito distante daquele no Largo do Pelourinho, assaltaram-me o carro durante a noite. Partiram um vidro e, entre o que roubaram – um saco com papéis para o lixo e um casaco de malha muito velho e desengonçado que eu adorava – levaram também o caderno. Perdi quatro histórias para um ladrãozeco qualquer, que confundiu o papel da minha literatura com a carteira do meu dinheiro. Só me lembro desta, talvez por ter sido a última. E nunca mais esqueci o tipo de dedo em riste a dizer:

– Tomas menos um café e lavas o carro, pá!

Fui à oficina. O vidro e a mão-de-obra custavam quase cem euros.

Encolhi os ombros e disse:

– Já agora, lave-me também o carro.