Pensar é uma atividade perigosa

Mal o senhor Caires pôs os pés no hall do palácio, o Conde surgiu-lhe pela frente, como saído da armadura de cavaleiro medieval que estava lá a decorar o espaço, de mão estendida para o saudar, coisa que fez efusivamente, tendo-o sacudido de cima a baixo com tal veemência que até as moedas e as chaves tilintaram nos bolsos das calças e os óculos ficaram tortos na cara. Depois perguntou-lhe como estava, ele e a família, os amigos, a saúde também – como está a saúde? – e pediu-lhe que o seguisse, que fossem indo pelo palácio adentro, usando sempre a expressão “meu caro amigo” no início ou no fim de cada frase. E o senhor Caires, atordoado, ia respondendo:

– Tudo bem, senhor Conde, tudo bem…

O Conde conduziu-o até uma pequena sala que tinha uma janelinha que dava para o jardim e pela janelinha entrava uma luz fria e estonteante. O senhor Caires ficou com a impressão de ter ido parar ao século XIX, mil oitocentos e qualquer coisa, mas depois notou que não, pois embora todos os objetos fossem originais do século XIX, a sala cheirava a detergentes, desinfetantes e perfumes do século XXI, odores que ele conhecia lá de casa e que se encontravam à venda em qualquer supermercado.

Sentaram-se frente a frente numas cadeiras nada confortáveis e, no mesmo instante, um criado entrou com uma bandeja contendo dois copos esguios, elegantíssimos, que pareciam pequenos fantasmas de cristal e provocaram uma vertigem no senhor Caires. O criado direcionou-lhe a bandeja e ele tomou um copo com a mão trémula, ao passo que o Conde agarrou no seu com firmeza e determinação.

O Conde bebeu um pouquinho e depois o senhor Caires fez o mesmo e ficou com um sentimento de assombro: era um líquido dourado e cintilante, macio, mas também áspero, doce-amargo, com travo a madeira, talvez carvalho ou cedro, e a frutos colhidos fora de época, se calhar damascos verdes, e deixava no copo uma lágrima espessa, lenta, infinita.

O senhor Caires pensou que era aguardente e também pensou que o amor é como a guerra – arrasa tudo e no fim só interessa quem está vivo e o que ficou de pé, ou seja, quase nada, quase ninguém. Depois, respirou e esqueceu o sabor do pensamento e da bebida.

O Conde notou a sua perplexidade e esclareceu:

– É vinho, meu caro amigo.

Vinho, pois claro! O célebre vinho que encanta presidentes e magnatas, princesas e meretrizes de alta envergadura, cardeais e generais, mas também pedintes e homens empenhados na salvação do mundo, seja lá qual for a classificação de cada um – fúteis, bobos, caprichosos, pedófilos, maricas, sacanas, libidinosos, santos, puros. Enfim, é um vinho para todo o tipo de gente, este que aqui se produz – mágico e arrebatador.

O senhor Caires ficou, então, com a trágica certeza de que o Conde, ao recebê-lo com uma bebida daquele calibre, tinha algo extremamente importante e grave para lhe comunicar e sentiu-se ainda mais aterrorizado, pois, fosse lá o que fosse, não haveria de caber dentro de si, tal como o desejo e a liberdade não cabem dentro do coração, nem o coração cabe dentro do homem, tão habituado a destruir o bem de agora com o mal de antes.

– O vinho é bom, não acha, Dr. Caires? – Perguntou o Conde.

– Sim, é muito bom – balbuciou. – Mas não sou doutor… – Advertiu.

– O meu caro amigo não é doutor! – O Conde franziu a testa, espantado. – Então enganaram-me. Já não se pode confiar na porcaria dos assessores, raios me partam!

No entanto, o senhor Caires sentiu que o Conde estava a fingir e pensou que essa é a essência do poder. Este filho da puta está a gozar comigo, disse para si. E depois ficou alarmado, pensando que o Conde tinha ouvido o seu pensamento. Ou, pior ainda, talvez tenha sido você a ouvir o meu pensamento, pois, na verdade, esta história tonta esconde um segredo terrível nas entrelinhas…