Goebbels revisitado

Na política é importante ter os instintos certos sobre o que é necessário, ao mesmo tempo que é imperioso ter os instintos certos sobre o que é possível. Mas para alguns arrivistas, nem o possível, nem o necessário, contam para o processo em curso. No caso regional, os arrivistas de feira saem debaixo dos buracos de cada vez que se pontapeia uma pedra. E é admirá-los a perorar sobre ar e vento ao mesmo tempo que exibem conhecimentos avançados sobre física quântica ou engenharia aeroespacial. Toda a gente sabe que este fenómeno – conhecimento acelerado sobre tudo – se intensificou com a internet e as redes sociais. Aliás, hoje qualquer alminha pode debitar e opinar sobre o que quiser, contribuindo para o tal populismo feito de ignorância e de pouco contraditório, mesmo parecendo o seu exacto contrário. Estes arrivistas, humildes seguidores de tendências e de modas, limitam-se a reagir a acontecimentos ou situações, aproveitando a crista da onda. No fundo, conhecem bem Goebbels, ministro da propaganda do Reich que, esperto, sabia que o importante era falar, não para dizer alguma coisa, mas para obter um certo efeito. O benefício parece estar, então, em dizer-se o que a turba quer ouvir. O custo, esse, é pensar-se que essa mesma turba, contente hoje, não os lincha amanhã. O que eu duvido.

 

A segunda mais velha profissão do mundo

Em ano de autárquicas, a política vai entrar num corrupio assente num sistema de leilões que é muito comum nas épocas de caça ao voto. Vai haver promessas a pataco, propaganda de pacote e a habitual vozearia, comum em momentos de maior tensão. Como é natural, cada contendente vai tentar fazer o melhor pela sua freguesia ou concelho, mediante as suas capacidades e objectivos. Não ponho isso em causa por que cada um segue uma estratégia e a liberdade é isso mesmo. Mas com a dança à porta, convém andar atento e separar o trigo do joio. Portanto, caro leitor, não estranhe se vir alguns cromos que antes jogavam numa equipa, a militar agora no plantel de outra equipa totalmente diferente. Na verdade, a apostasia regional tem-se revelado um negócio de prostituição política profícua que varia entre a vulgata de esquina pouco recomendável e o cabaré de luxo. E, contudo, muito pouco impressiona nesta promiscuidade das transferências nas vésperas de eleições. Porquê? Porque se vê de tudo: gente que já militou em vários partidos, e que seguramente ainda não encontrou o seu lugar; gente que ainda ontem jurava amor eterno a uma camisola e que hoje acorda abraçada a nova amante; gente sem a mínima noção das suas limitações; gente que não ia ser nunca política profissional e que agora vive exclusivamente disso; e gente oportunista, sem escrúpulos ou vergonha na cara. É claro que também há gente com amor à camisola, honesta, trabalhadora e séria, mas essa não muda de princípios facilmente e não é para aqui chamada. Entretanto, a cara-de-pau dos apóstatas é impagável e ridiculamente reveladora do carácter. Ou da falta dele. Ronald Reagan, um dos grandes presidentes americanos do século XX, um dia disse que a política era a segunda mais velha profissão do mundo e que conseguia ver muitas semelhanças com a primeira. E se alguém enfiou a carapuça, foi porque a sentença lhe assentou como uma luva.