Crónica do poeta sem poema

Não me lembro quando redigi o meu primeiro texto, mas deve ter sido mal aprendi a escrever, com sete ou oito anos, andava eu na escola da Quinta das Freiras, ao pé do campo do Marítimo, e a professora chamava-se Graça. Era uma excelente professora, sem dúvida, mas muito exigente e sem tempo para brincadeiras. Tinha mau feitio e às vezes era mesmo má, ui ui. Todos nós apanhávamos reguadas a eito por causa da burrice ou do mau comportamento ou por ambos à vez e tínhamos medo dela como o diabo da cruz.

Quando eu cheguei, já conhecia as letras – a e i o u – pá pé pia pó pua – e os números também 1 2 3 4 5 – 6 7 8 9 – o zero incluído, claro – porque a minha prima Ana era professora, ou estava a estudar para ser professora, e deu-me aulas em casa antes de iniciar a primeira classe. Ainda assim, apanhei reguadas que me fartei ao longo da instrução primária, porque dava erros ortográficos como erva daninha na beira da estrada, lia mal e porcamente, sempre a tremer e a gaguejar, e não percebia nada de matemática. Além disso, volta e meia portava-me mal no recreio.

Seja como for, foi algures por ali que comecei a escrever. Mas, de facto, não me lembro quando compus o primeiro texto e muito menos acerca de quê. Deve ter sido uma redação sobre as férias grandes. Ou, se calhar, foi um argumento para me orientar nas brincadeiras e fantasias na Floresta Mágica – a fazenda do meu avô. É possível. Eu sempre gostei de dar corpo de letra a personagens do meu imaginário, porque é um modo de dizer quem sou sem revelar segredos.

O primeiro texto de que me lembro data de quando eu tinha 10 ou 11 anos e andava na Escola Preparatória da Cruz de Carvalho. O original, contudo, perdeu-se para sempre, como tantos outros, numa fogueira endiabrada que eu fiz mais tarde, quando tinha 18 anos e vivia sob o efeito dos filósofos niilistas e, sobretudo, da estupidez, que, como todos sabem, é uma coisa descontrolada, inoportuna e intermitente, que ocorre dentro do indivíduo em qualquer idade.

A professora de Português pediu-nos para fazer uma redação a partir da figura de estilo ‘personificação’ e eu escrevi a história de um vime na primeira pessoa, a contar que vivia feliz com os meus irmãos ao pé da ribeira, sempre a ouvir o canto da água e os sapos a cantar, todos a balançar ao sabor do vento, para cá e para lá, agarrados à nossa casa, feita de madeira retorcida e com raízes profundas, a ver os vizinhos em redor também felizes e agarrados às suas casas, até que, de repente, vieram homens armados com podões e podoas e cortaram-nos todos rente ao tronco do qual brotávamos cheios de vida e fizeram molhos com os nossos corpos verdes e esguios, carregaram-nos às costas para longe da ribeira, para longe de casa, cozeram-nos numa caldeira, arrancaram-nos a pele, puseram-nos a secar ao sol, coitados, já mal nos reconhecíamos uns aos outros – quem és tu, meu irmão? e tu, quem és? – e tantos suplícios passámos às mãos dos homens, tantos tormentos, tanta dor, até que um dia começaram a nos entrelaçar uns nos outros, todos juntos outra vez, a ficar mais robustos, mais possantes, mais altivos, e eis que formámos uma cadeira, tão bela e elegante e sólida, de braços fortes e amplo espaldar, onde um velhinho se senta todos os dias a contar histórias ao neto e com isso reencontramos a felicidade, eu e os meus irmãos, como se continuássemos livres na beira da ribeira.

A redação estava cheia de erros ortográficos, mas a professora pediu-me para ler em voz alta para a turma, coisa que eu fiz muito corado, a tremer e a gaguejar, do princípio ao fim.

Antes, porém, perguntou-me à socapa:

– Foste mesmo tu que escreveste a história?