O tempo e o deserto

Dona Beleza Móvel tem 45 anos e é bonita, muito bonita, mas vive numa insegurança aterradora, como se fosse feia e cheia de defeitos, situação que disfarça com altivez e snobismo. Ela é uma daquelas mulheres maduras que não sabem ser bonitas, que detestam o olhar dos homens, mesmo se distante, distraído ou indiferente, e não toleram a sua aproximação, nem aceitam qualquer tipo de insinuação ou sequer o mais leve toque – que horror! que nojo! – ainda que seja por acaso.

Madura, linda de morrer, dona Beleza Móvel vive amedrontada com o esplendor do seu corpo e, talvez por isso, sofre de distanciamentos, quase na exata proporção em que as outras se dedicam ao ginásio e à autocontemplação. Os distanciamentos sucedem-se amiúde ao correr do dia, apanhando-a a desjeito, em qualquer circunstância ou lugar. Às vezes, são instantâneos, tão rápidos que ninguém se apercebe. Outras vezes, são demorados, tanto que quem não a conhece fica alarmado.

Dona Beleza Móvel fica imóvel, nem pestaneja. Os enormes olhos azuis enchem-se de um brilho irreal e as longas pestanas abrem-se como pétalas ao amanhecer. O cabelo loiro e comprido, já com muitos fios brancos, levemente ondulado, caído sobre os ombros, assume contornos de auréola e do rosto imana uma claridade imaterial. Os lábios, mais carnudos do que finos, entreabrem-se, como num filme erótico, quase pornográfico, e o gesto para. O coração amansa. O corpo adormece. Pernas, coxas, ancas, seios. Braços, pescoço, ventre, nádegas. Uma mão descai no vazio, outra sobre o sexo.

Ninguém sabe aonde os distanciamentos a levam, nem ela própria, pois tudo dentro de si se confunde: o nada com o tudo e o temor com o fascínio, o ato com a consequência e o sonho com o desejo, mas sobretudo o ar que respira com o vazio que a sufoca e penetra e liberta, como se fosse amor, como se fosse sexo.

Por causa deste estranho comportamento, os nobres do sítio, ricos e políticos e afins, cuidaram que, ao herdar o império do pai, sendo filha única, dona Beleza Móvel deitaria tudo a perder no espaço de um distanciamento, ou seja, num abrir e fechar de olhos. A catástrofe parecia ainda mais certa tendo em conta que ela era solteira e seca em amores.

Os homens, novos e velhos, começaram então a aproximar-se, uns como raposas, outros como corvos, exatamente como fazem também com as mulheres divorciadas, todos com o objetivo de lhe cravar as garras na carne e na fortuna. Mas ela repeliu-os com desdém.

Dona Beleza Móvel era agora proprietária de hectares e hectares de macieiras, vários engenhos, milhões de litros de sidra, toneladas e toneladas de fruta, um tesouro incalculável. Todos pensavam que ela ia deitar tudo por água abaixo, mas aconteceu precisamente o contrário. Fez investimentos acertados, cortou despesas a eito, remodelou, renovou, modernizou e os produtos reapareceram no mercado em novas e elegantes embalagens, com rótulos vanguardistas, marcados pela figura de uma serpente enroscada numa mulher nua, que a todos fazia lembrar a própria – bela, madura, sensual, pudica.

A única coisa que deixou ficar como estava foi o antigo solar da vila, mandado construir pelo bisavô, algures na alvorada do século XX. O imenso casarão – sóbrio, mas imponente – é agora uma ruína que ela percorre como um fantasma ou uma memória que se desprendeu dos móveis, das porcelanas, dos tecidos. Uma varanda alpendorada contorna o edifício ao longo do primeiro piso. Todos os dias, dona Beleza Móvel senta-se ali, numa cadeira de baloiço, virada a sul, com vista para o mar, às vezes manhãs inteiras, tardes completas, noites sem fim, e pensa na beleza inquietante do mundo, tão intensa e solitária, planeia viagens que nunca fará e, sobretudo, afunda-se em longos e profundos distanciamentos, cheia de medo de si, como se fosse feia e defeituosa, um horror de mulher. E assim, mais-que-perfeita, envelhece…