Política de taberna

Os homens da taberna nunca perderam muito tempo a apreciar política. Alguns nem sabiam ler nem escrever. A vida era muito diferente da que viam na televisão e acreditavam que nenhum dos candidatos a coisas e cargos, que de vez em quando apareciam no ecrã e na telefonia, pouco sabiam do que era a vida deles. Do que custava acordar de madrugada, às vezes com tempo de neve na serra, as mãos e a alma enregeladas, para ir cuidar da terra. Fosse água de giro, fosse chegar terra às semilhas ou mondar. “Eles sabem lá”, resmungava um, quando outro tentava puxar os outros à roda do comentário, pela manhã, enquanto bebiam “meio cales” para aquecer. “Não quero saber disso, ainda nem sei em quem voto que aquilo é tudo igual”.

Quando aparecia alguém de fora do circuito, animava-os um bocado. Como o outro, calceteiro, que levava pedrinhas para a televisão. E o que dizia ser contra a bandidagem. É que falavam de coisas que eles sempre percebiam.  A Economia, a Sustentabilidade da Segurança Social e a revisão da Constituição era palavreado a mais para quem trata das bananeiras.

Nem sabiam bem o que eram ciganos, que o mais longe que alguns tinham ido era ao Porto Santo e foi daquela vez lá longe ainda se ia no Independência. “Foi um passeio bom”, lembrava quem tinha tido essa sorte. “Mas essa gente não deve ser boa, se é como ele diz”. 

Às vezes o diálogo eleitoral animava: “O nosso Presidente é boa gente, que quando foi aquele lume lá fora, ele lá andou a abraçar os velhos e pobres como a gente”. Mas votar, ninguém sabia bem se valia a pena.

- Olha, meu filho que está embarcado no continente, diz que este rapazote não presta para nada, que é pior que os outros todos, que é como votar num Salazar.

-Quem, o velho?

-Sim, só que este é novo.

- Realmente, isso eram tempos tristes, quase tão tristes como estes, com esta desgraça que se abateu sobre o mundo. Tanta fominha passamos e nem o bico podíamos abrir, pelos menos agora vai dando para o comerzinho, até ver.

- Olha, vê-se caras e não se vê corações. A gente sabe lá o que é melhor?   A minha pequena cá diz que já é tempo de ter uma mulher a mandar. As minhas já mandam em casa.

-É por isto tudo, estas arenguices, que eu não gosto, não gosto de política. Se ao menos viessem deitar a mão a cavar.

 

 

Sandra Cardoso escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas