Cuidado, crianças! Cuidado!

Trago lições de vida de todos os lugares onde estive, todos sem exceção, por mais breve que tenha sido a minha estada ou por mais pequeno que fosse o sítio, como por exemplo aquele bocado de asfalto perto da minha casa, nas zonas altas de Santo António, onde um dia fui parar por excesso de vinho e súbito vazio de alma. Sim senhor, esse país duro e frio, cuja dimensão é igual à do meu corpo ao comprido, trouxe-me dor e sangue e clarividência em dose cósmica. Aprendi muito nos dez segundos que lá permaneci e, para mim, aprender consiste em assumir a ignorância e todos os pecados também e depois seguir em frente sem manias.

Algumas das lições mais profundas e esclarecedoras, porém, trago-as de África, dos países que visitei de passagem, como Mali, Cabo Verde, Tunísia ou Malawi, mas sobretudo de Moçambique, onde vivi durante cinco anos numa cidadezinha da Alta Zambézia, perdida entre montanhas e plantações de chá, no sopé dos Montes Namuli.

Para lá chegar era uma viagem e peras, mesmo indo pelo caminho mais curto. Primeiro, um voo daqui para Lisboa. Depois, quase onze horas até Maputo. A seguir, sempre de avião, mais duas horas até Quelimane, a capital da província. Aqui, metia-me num chapa apinhado de gente às quatro e meia da manhã e fazia seis horas de estrada, com troços em terra batida pelo meio, passando por localidades como Nicoadala, Namacurra, Mocuba, Mugeba, Nampevo, Errego, Invinha, e por fim chegava ao meu querido e mágico destino: Gúruè.

Uma vez, no bairro onde eu vivia, os miúdos da vizinhança começaram a falar que o Município se preparava para abater três sumaúmas que se erguiam majestosas no fundo da encosta, junto à linha de água, com o objetivo de criar mais espaço para machambas de arroz e fornecer madeira e lenha à população. O falatório durou quase uma semana e eles andaram todos os dias para baixo e para cima, pelos becos entre casas de tijolo com teto de zinco ou capim, a medir as distâncias e a analisar os melhores sítios para assistirem ao derrube das árvores.

De repente, numa certa manhã, ouviu-se o som das motosserras a trabalhar e logo de seguida a voz excitada do puto que liderava o grupo da zona. Tinha uns 12 anos e era filho do vizinho mais abastado, muito inteligente, expedito e sempre disponível para apoiar os outros. Volta e meia, eu via-o sentado na varanda duma casa, a dar explicações de Matemática ou de Português aos amigos, ali espantados a olhar para ele, e também dava conselhos úteis e muito prudentes.

– Criançaaaas, venhaaaam! – Gritava ele naquela manhã, ao som das motosserras.

E insistia, cada vez mais alto:

– Venham, crianças! Venhaaaam!

Miúdos de vários tamanhos e feitios surgiram esbaforidos de vários pontos, uns esfarrapados, outros descalços, muitos sujos, os mais pequenos nus, vieram também raparigas, algumas carregavam às costas irmãos recém-nascidos metidos na capulana, todos numa correria desenfreada atrás do chefe. E lá ia ele à frente, pela encosta abaixo, sempre a gritar:

– Venham, crianças! Venhaaaam!

A certa altura, parou num posto altaneiro, com boa vista para o cenário das operações, e ordenou:

– Vão, crianças! Vãããão!

E os outros foram, sem travar nem pensar, a correr felizes e sem medo até a beira das árvores. Uma estava já prestes a tombar e o líder, em segurança lá no alto e vendo bem o perigo que a tropa enfrentava, dizia aos berros:

– Cuidado, crianças! Cuidaaaado!