Não lhes roubem as oportunidades

Quarenta e cinco anos se passaram desde aquela noite em que o vento desfraldou, pela primeira vez a Bandeira de Angola e levou, para o mundo, os acordes do Angola Avante.

Na memória de quem viveu esses 45 anos há ilusões e desilusões. Alegrias e tristezas a par de muitas certezas cimentadas por grandes vitórias, enfrentando inúmeros desafios e constrangimentos, ultrapassando barreiras, fortalecendo-se com cada experiência, e sobretudo, construindo a sua realidade. São 45 anos de luta, em todas as dimensões, civil, militar - com uma das mais violentas e destruidoras guerras do século XX - social, política, económica, cultural, são mais de quatro décadas de ansiedade, de expectativas, de desejos, de sonhos, porém, igualmente, de desilusões, de frustrações, de cansaço, de desespero. Em 45 anos, gerações de angolanos nasceram no turbilhão que foi o período pós-independência, enfrentaram uma guerra civil devastadora, deram início à caminhada para a construção da paz e reconciliação nacional.

Para um país, quatro décadas é muito ou pouco tempo? Para uns será uma eternidade, mas, em termos Históricos há que admitir que é muito pouco, o que não implica, logicamente, pôr de lado a necessidade de fazer uma reflexão sobre essa trajectória de modo a que possamos entender o que fazer no futuro.

Para quem viveu quase todos os acontecimentos e mudanças pós Independência em Luanda, a capital, a grande cidade, que o resto, como sói dizer-se, é “o mato”, por estar mais perto do Poder político, tem a noção exacta de que se podia ter feito mais. Muitos foram os constrangimentos, guerra, corrupção, compadrios, favoritismos, apadrinhamentos que levaram os angolanos a olhar, hoje, para o futuro com um certo ceticismo. Com uma perda de esperança, por vezes. Este ceticismo, esta perda de confiança em si mesmos e nos outros, levou a que muitos venham criando, até, dificuldades à construção de um outro amanhã.

Luanda, a capital, de onde emanam leis e decisões é, hoje, um caldeirão de gente, homens e mulheres, em busca de melhores condições de vida. Um caldeirão onde fervilham os jovens em busca de oportunidades que lhe foram subtraídas por anos de má governação. De oportunismos. De uma corrupção que ditava as regras do jogo. Jovens em busca de uma identidade que perderam, quando vieram nascer em “terra alheia”, porque uma guerra de décadas levou a que os seus pais abandonassem as terras de origem para procurar, na “grande cidade” protecção e a ilusão de uma vida melhor. Uma juventude que, em significativa medida, substituiu o trabalho e a aprendizagem pelo “business” - uma nova palavra do vocabulário do país - uma juventude a querer enriquecer rápida e facilmente, muitas vezes sem olhar a meios, nem a leis.

Mas… mas há sempre um mas em tudo na vida. Hoje, começa a despontar uma outra juventude. A que se formou nas novas Universidades, reivindicativa, contestatária, informada, por vezes impetuosa em demasia que começa a perceber que Angola é mais, muito mais do que aquela frase, infelizmente dita quase sempre com conotação e entoação negativista quando se quer justificar o indesculpável,  “Isto é Angooola“. Nessa nova geração está a esperança que o Presidente/Poeta expressou numa poesia, que mais do que isso é um grito, um incentivo de confiança “Havemos de voltar à Angola libertada, Angola Independente”, só é preciso que não lhe roubem, de novo, as oportunidades.

Quarenta e cinco anos. Podíamos, devíamos ter feito muito mais. Ainda estamos a tempo.

Apesar de tudo, na vida de uma Nação, 45 anos não é assim tanto tempo.