Leis da Natureza e Milagres

Será Deus um transgressor das leis da natureza? Quer Deus violar as leis que Ele mesmo criou e colocou na natureza? Se pelo milagre se pode demonstrar a existência de Deus, então não é preciso a fé sobrenatural, Deus passa a ser uma certeza científica, neste caso não haveria ateus. Nos tempos de Jesus os homens viam no milagre um facto assombroso e surpreendente que deixava todos maravilhados, não perguntavam se tinha explicações. Os fariseus diziam as piores blasfémias contra Jesus, “Ele faz milagres pelo poder de Beelzebú”, ou seja, pelos chefes dos demónios.

Para as multidões que seguiam Jesus era suficiente dizer que se tratava de um “sinal” da presença de Deus. O milagre nos evangelhos tem dois aspectos; é fora do comum, é extraordinário, todos podiam ver, mas só os que tinham fé descobriam o sentido religioso. Os evangelistas nunca perguntam se o que Jesus faz era possível ou impossível, acreditavam que ali Deus estava atuando e, por isto, chamavam milagre.

A palavra tem origem no latim “mirari” e significa “admirar-se”, portanto, a condição para que aconteça um milagre é que se trate de um facto perante o qual as pessoas se admirem, sem preocupar-se saber se tem ou não explicação, os que não se admiram não acreditam.

Quando Jesus curou a mulher encurvada, o chefe da sinagoga não se admirou por semelhante prodígio, mas repreendeu Jesus por ter feito isto ao sábado (Lc. 13,14), deveria fazê-lo noutro dia da semana. Quando Jesus exorcizou um surdo mudo ao sábado, diz o evangelista Mateus (Mt, 12,27) que os fariseus não acreditaram nEle porque eles também podiam fazer o mesmo. Os milagres realizados por Jesus não comoviam a todos da mesma forma, só os que tinham fé no Senhor acreditavam, os outros não.

A tradição cristã primitiva, que está na base dos “Sinais”, mostra o poder de Jesus numa série de factos prodigiosos e as Palavras de Jesus a este respeito. A narração de milagres estende-se a todos os quatro evangelistas: Mateus apresenta 19, Marcos 18, Lucas 20 e João 8, sendo o milagre das Bodas de Caná o único que lhe é próprio.

Os milagres necessitam de serem acompanhados com a Palavra, ambos mostram o poder de Jesus, São Mateus escreve: “Quando Jesus acabou estes discursos, as multidões estavam admiradas com a Sua Doutrina, porque os ensinava como quem tinha autoridade (exousia e dynamis em grego) e não como os seus escribas”. Em Jesus cumpre-se a profecia de Isaías, citado por São Mateus (Mt.12,18): “Eis o meu servo que Eu escolhi, o meu Amado em quem a minha alma pôs as suas complacências. Farei repousar sobre Ele o meu Espírito, e Ele anunciará a justiça às nações”. São João apresenta a Palavra e o gesto de Jesus como causa dos sinais e das obras e, ao mesmo tempo, mostra a sua unidade com o Pai, como raiz das suas palavra e obras: “Não acreditais que Eu estou no Pai e que o Pai está em mim?” (Jo.14,9)

Os milagres estão subordinados à Palavra, Jesus indicava como frágil a fé baseada nos sinais, palavra usada por João em vez de milagre: “Estando em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos acreditaram no seu Nome vendo os milagres que fazia. Mas Jesus não se fiava neles, porque os conhecia a todos”. (Jo. 2,23)

Contudo, o milagre é parte integrante do anúncio de Cristo desde o princípio, e ocupa um lugar importante nos quatro evangelhos, eles constituem uma séria e válida base para afirmar a sua objetividade histórica.