(in) Quieta num canto

Eu quero é que me deixem quieta no meu canto. Eu não me meto na vida de ninguém e só me vêm para a porta com bilhardices. Eu não vou para a porta de ninguém… mas, diabo, com tanto ‘condanarem’ a alma de uma pessoa com este diz que disse. É que metem gente boa no purgatório e gente reles às portas do céu.

Praguejava vezes a fio, num monólogo irritado, enquanto servia uma chávena de café e uma fatia de bolo que tinha ficado de domingo. Ao fim-de-semana era de dia de tirar os açúcares dos armários e mandá-los para a corrente sanguínea, em viagem. E esperar que corresse bem e que o médico não notasse. Era uma desgraça para a diabetes, mas uma delícia para as papilas gustativas, que ela tinha mão para a cozinha. E para escutar. Ouvia com o corpo todo, dando forma à expressão “sou toda ouvidos”.

E era mesmo. Como se o seu corpo fosse um divã de confiança, onde se relatava a vida da aldeia toda, os amores e desamores, as doenças, as zangas, os anúncios de casamento e batizados. Era o fulano que não ia ser padrinho de sicrano. Tão amigos que eles eram, mas estão brigados desde a festa do Senhor, porque não lhe pagou a espetada como tinha ficado combinado e era a vez dele. Era, era, que o vendeiro bem se lembra. Mas não digas a ninguém, que te disse. E ela não dizia.

- Eu quero é que me deixem sossegada no meu canto. Quer uma fatia de bolo? Um cafezinho? E arregalava os olhos quando ouvia histórias cabeludas da vizinhança.

A roda de gente, à volta daquela mesa sempre cheia de comida, café e histórias e onde era sempre hora de lanche, tendia a aumentar. E as histórias dos amores, das separações de guerras de família e zangas para sempre até fazerem as pazes misturavam-se. Contavam um conto, mas acrescentavam mais que um ponto. Vírgulas, reticências e enredos. Ganhava densidade e vida própria a boataria que era “verdade, verdadinha, sim senhor”.

- Onde ouviste?

- Na casa de Maria.

E era assim que ela se via enredada na teia, com o seu enrodilhado na língua comprida e lamacenta do mal dizer. E então prometia que ia fechar a porta à chave e por dentro, que não havia nem café, nem bolo.  Não senhores. Nem um copinho de água, para quem só lhe levava desassossego. Praguejava e resmungava da mesma maneira que ouvia, com o corpo todo, num monólogo irritado, enquanto servia um chá e uma fatia de tarte feita de véspera.

 

Sandra Cardoso escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas