Fiel jardineira

Era um jardim encantado na sua desorganização. Afinal tudo pegava de galho. Mas um jardim de nada vale sem o seu jardineiro. Foi definhando pelos meses que se somavam aquele dia em que os médicos assinalaram na certidão de óbito e com hora exata.

As ervas daninhas tomaram conta do que então eram canteiros de flores a conviver lado a lado com ervinhas de chá, numa mistura exótica que se tornava harmoniosa e perfumada. Depois foi uma aula de botânica ao vivo, em que se conseguia perceber a capacidade de cada planta resistir à solidão e abandono. E também à falta de água, porque amor e atenção sem rega de nada vale, convenhamos. Se bem que rega é também amor e atenção, se formos a ver como deve ser.

De vez em quando eram acionados os paliativos. Quando alguém se lembrava do que ela gostava de flores e como ficaria triste naquele desalento que reinava à frente daquilo que um dia fora a porta onde ela acenava a quem passava. Sempre sorridente, como se fosse toda ela um jardim em flor. Então, mandavam limpar os bardos que se formavam a tapar as sobreviventes. Dos arco-íris daquelas primaveras sobraram tons monocromáticos de verde. E uma flor aqui e além a rarear, numa teimosia que chegava a comover.

Veio um verão, um outono, um inverno e uma primavera. Repetiu-se o ciclo uma e outra vez e foi aí que ela que nem gostava de flores (parvoíce, não deve haver quem não goste de flores, não era não gostar, era falta de paciência para as tratar e imaturidade também) resolveu arrancar debaixo das ervas os restos quase mortais do que fora outrora uma planta viçosa. Sobreviveu à viagem de avião, apesar de ter ido mal-amanhada na mala. E pegou e floriu, mesmo com cuidados muito abaixo dos que recebeu nos tempos áureos, em que era mais uma entre tantas de um colorido jardim. Passou o verão e no outono ainda conservava uma flor, que esta era das obstinadas. Oh se era.

E veio as primeiras chuvas e o vaso encheu-se de urtigas, cujas sementes deviam ter ido agarradas à terra junto à raiz. Ela que nem gostava de flores (disparate, como se fosse possível não gostar de flores) comprou uma luva de jardinagem (o que lhe valeu um sorriso para o céu) e apanhou-as pacientemente, sem se picar. O riso tornou-se gargalhada quando se lembrou de quando se metia com ela e mandava-a às urtigas. Mas foi noutro tempo, no tempo que tinha um jardim, antes daquele dia, e daquela hora apontada na certidão de óbito, várias estações do ano atrás.

 

Sandra Cardoso escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas