As coisas como elas não são

Eu quero as coisas como elas não são: uvas sem grainha, livros sem leitura, sexo sem amor. Ou vice-versa: amor sem sexo, leitura sem livros, grainha sem uvas. Tanto faz. Eu quero sempre as coisas como elas não são, porque as quero pelo melhor do que são: o seu contrário. Quero tudo sem nada e nada com tudo. É este o sentido da vida e o da morte também: as coisas como elas não são.

Escrevi isto num caderno em julho de 2008, durante uma viagem em Moçambique, em que cruzei sozinho as províncias da Zambézia, Nampula, Cabo Delgado e Niassa, tendo utilizado apenas transportes públicos – camiões carregados de mercadorias e de gente, minibuses de 12 lugares que transportavam 20 passageiros e animais vivos também, galinhas e cabritos, e ainda o comboio do Corredor de Nacala, um pouca-terra tão velho e lento que nunca mais chegava ao destino.

Dias antes de iniciar a jornada, encontrei na biblioteca da escola onde dava aulas, na Alta Zambézia, um guia turístico do país escrito em inglês e requisitei-o. Foi-me muito útil, pois parti à toa, sem plano, sem rota definida, e aquilo ajudou-me imenso sempre que chegava a um sítio, sobretudo no que toca a ‘onde ficar’ e ‘onde comer’.

O guia estava, porém, desatualizado. Era uma edição de 1998 e as coisas já não eram como tinham sido, pelo que, não raras vezes, fui parar a sítios muito maus, pensando que eram muito bons. Aconteceu, por exemplo, com o Hotel Chiwindi, em Lichinga, descrito como um dos melhores da cidade, mas então em profunda decadência. Quando cheguei à porta, hesitei. Ocorreu-me ir à procura de outro, mas o nome fez-me ficar. Chiwindi. Já não me lembro o que significa na língua local, acho que é fígado, ou coisa parecida, víscera, entranha, o nome de um rio, não sei, mas acima de tudo é uma palavra cheia de África e música e eu fiquei por isso.

À noite, depois de ter tomado banho de água fria com balde e caneco, porque a canalização da casa de banho estava avariada, estendi-me na cama, que era velha e rangia e os lençóis cheiravam a mofo, o colchão mais ainda, e pus-me a observar as teias de aranha, que as havia por todos os cantos e recantos, e as osgas passeando nas traves do teto, e o voo cínico dos mosquitos, que depois me picaram todo e a minha pele ficou cheia de pontinhos vermelhos como as constelações do sul suspensas num céu profundo, distante e irreal, tanto assim como o meu querer estar ali mesmo num outro hotel chamado Chiwindi também.

Peguei no caderno e na caneta e escrevi:

Eu quero as coisas como elas não são: fruta sem caroços, corpo sem nudez, riqueza sem dinheiro. Ou vice-versa: dinheiro sem riqueza, nudez sem corpo, caroços sem fruta. Tanto faz. Eu quero sempre as coisas como elas não são, porque as quero pelo melhor do que são: o seu contrário. Quero a vida sem morte e a morte com vida. É este o sentido de uma e de outra também.

Na altura, esta filosofia pareceu-me porreira, quase perfeita na explicação do ser e muito adequada àquela viagem em solidão e arrebatamento no terceiro mundo. Agora, porém, acho que é uma boa conversa fiada para aqui passar o tempo, embora o tempo aqui também se faça de muito boa conversa fiada. Além disso, sei que é um decalque de outras filosofias geradas antes do meu princípio no mundo, porque, de facto, já tudo foi dito, feito, pensado e sentido por outros no fundo do passado mais fundo.

Seja lá como for, tem dias que eu saio à rua e parece-me que vejo ainda as coisas como elas não são, exatamente como não são. Será impressão minha ou de outros também? As coisas como elas não são…