O Funchal Felisberta

Em 1994, quando chegou a Mayor de Nova Iorque, Rudolph Giuliani encontrou uma cidade decadente, degrada, suja e povoada de pequeno e grande crime. Nova Iorque não era apenas uma das cidades mais inseguras da América, era também uma das cidades mais perigosas do mundo, um espelho deprimente das políticas socialistas nas cidades americanas. Mas a partir daí, a cidade mudou porque Giuliani percebeu como resolver o que a psicologia já havia revelado e que afirmava que janelas partidas atraíam mais janelas partidas, que grafitis atraíam mais grafitis, que lixo atraía mais lixo e que a pequena delinquência atraía mais delinquência. Mas havia solução. O que era preciso fazer era substituir os vidros das janelas partidas, limpar os grafitis, combater a delinquência, recolher o lixo, em suma, lavar a cidade, uma e outra vez, todos os dias, as vezes que fossem necessárias. Agir. Não desistir. Quando Giuliani saiu, em 2002, o crime baixara 50% e os homicídios quase dois terços. Em 8 anos, a cidade recuperara turistas, investidores e habitantes e Giuliani provara que numa cidade limpa, cuidada e organizada as pessoas zelam melhor por aquilo que é seu. Cidades grandes e pequenas acabaram a copiar o seu exemplo com final feliz.

Infelizmente, nem sempre é assim. Porque há quem prefira continuar a vibrar com as contradições que mascaram a incapacidade de resolver problemas em vez de arregaçar as mangas. Como acontece no Funchal onde, aliás, é fácil inventar factos e manipular informação porque o difícil parece ser desenvolver soluções com resultados. Por isso, vou ser claro: o que está a gerar a subida da insegurança (real, imaginada, pressentida ou percepcionada) na cidade são, antes de mais, duas coisas simples. A primeira é o abandono da cidade pelos seus responsáveis políticos, os tais que prometeram reabilitar, apoiar o pequeno comércio, ajudar os sem-abrigo e revolucionar o centro e a periferia. A segunda é o laxismo que espera de braços cruzados por milagres vindos do céu ou que lonas, como a que havia na Felisberta, escondam o problema. Só que, e como já vimos, quando não se faz nada, a decadência atrai mais decadência e a degradação mais degradação. Estamos tramados.


Sem princípios. Com Privilégios

À força de querer evitar o óbvio, certos políticos acabam na esparrela do ridículo, tal como o rei que se julgava vestido e afinal caminhava nu. Nesse ponto, o ex-velho-novo líder socialista é um perito em cair no erro. Ou erros, para melhor dizer. Primeiro, julgando que as pessoas não têm memória. Segundo, arrogando-se vestal romana alheia ao golpe que se fechou há oito dias. Terceiro, fugindo habilidosamente às responsabilidades. Quarto, sacudindo três [muito] inconvenientes derrotas do currículo. E, quinto, afixando uma piada de mau gosto no congresso ["Com Princípios. Sem Privilégios"] como lema, como se o teatro que representou no tempo em que fingia ser presidente de Câmara e brincava aos candidatos ao Governo usando meios públicos para fins privados, fosse questão menor. Os princípios do homem que destruiu duas coligações (por vaidade), que mentiu aos funchalenses (por interesse) e que fugiu da ALM (por conveniência) são, no mínimo, dúbios e afiam dois gumes. Já os privilégios, esses, são e foram, mais que evidências, também certezas bem usufruídas pelo papel em exibição. Não se iludam. De boas intenções está o inferno cheio.


Terra queimada

O congresso socialista primou pela purga das criaturas que impediam o poder absoluto interno e pela necessidade de branquear os últimos meses de agonia. O momento foi sublime: incluiu um misterioso silêncio do líder no primeiro dia, uma aplicação que controlava as votações e uma aparente unanimidade nos assuntos, desde que quem não concordasse saísse da sala. Fora pormenores, foi um sucesso concretizado também no novo léxico socialista que incita as camaradas e os camarados (como um dia disse um tipo do Bloco) a começar discursos com um "bom dia a todos e a todas". Como corolário de um fim-de-semana bem passado, foi ver "os todos e as todas", esta semana, a mostrar os galões da "nova forma de fazer política" recauchutada no congresso. E se semanas antes a "nova forma de fazer política" era atacar o trabalho social das Casas do Povo, os programas de emprego, o trabalho das associações, os "cartéis" das empresas de construção civil e tudo o que pudesse ser enxotado para a lama sem direito a contraditório, agora a "nova forma de fazer política" inclui, nos alvos a enlamear, motoristas, secretárias, chefes de divisão, directores de serviço e, presumo, 40% das cabeleireiras e 837 taxistas. Para os ideólogos da "nova forma de fazer política", esta gente é incompetente, oportunista, tachista, corrupta e tem, presumo, tendências cleptomaníacas e homicidas. Um bando de malfeitores, portanto. Temo é que com tantos excluídos, esta "nova forma de fazer política" não tenha, qualquer dia, ninguém que continue uma futura "nova forma de fazer política" e que leia a meia dúzia de suplementos gastos a mostrar fotografias "dos todos e das todas" no congresso onde não havia privilegiados (ironia) e cujos princípios magnânimos e aprovados por unanimidade (sem ironia) são agora afirmar que quem não é da trupe é bandido, corrupto, incompetente, tachista, sinistro e/ou diminuído [risque o que não se verificar]. Os tempos prometem. Já se vibra com a "nova forma de fazer política".