Toda a minha desumanidade

Tudo o que escrevo é o espelho da minha desumanidade. Digo sempre a verdade na primeira pessoa e escondo-me dela na terceira. Abomino citações, porque o sofrimento ou a felicidade dos outros jamais serão a minha felicidade ou o meu sofrimento, mas às vezes coincidem e eu cometo o pecado de as fazer – malditas citações. Por outro lado, amo a ficção e sirvo-me dela para explicar o mundo, como nas últimas três crónicas, fazendo com que um certo acontecimento pareça demasiado extraordinário para ser real, como se a vida não fosse feita de espantos e criaturas insignificantes.

Fechei os olhos e disse para dentro:

– Era bom que dormisses.

Mas não dormi.

O cachorro ladrou durante uma boa parte da noite, horas e horas, às vezes movido por ruídos que eu também ouvia – vozes, carros, vento – outras vezes impelido pelo som do silêncio e pela agitação dos sonhos. Corria no quintal a ladrar atrás da inexistência, como eu corro à procura de Deus na consciência.

– Reza, Duarte, reza.

Mas não rezei.

Rezar é uma forma de egoísmo, mesmo que seja pela salvação dos outros. Além disso, eu não acredito em Deus. Sou, contudo, suficientemente espiritual para o aceitar inteiro em toda a parte, omnisciente e omnipresente, no bem e no mal, em tudo o que é mortal. Vejo-o como uma manta de retalhos, na qual cada ser humano cose o tempo e o espaço da sua permanência no universo e nela se aconchega antes do fim ou do nada ou da eternidade. É tudo a mesma coisa: solidão. Volta e meia embrulhamo-nos nos retalhos dos outros e também vemos os outros embrulhados no nosso retalho.

– Salva-te, homem, salva-te.

Mas não me salvo, não me salvo...

Uma vez, quando eu era pequeno, o meu pai pediu-me para apanhar erva e deitar aos coelhos, as rabaças ao pé da levada, disse ele, porque estava com pressa, não tinha tempo. Eu disse sim, vou apanhar erva. Mas o que fiz foi soltá-los no poio, para que se servissem à vontade. Deste modo, poupei-me ao trabalho e, sobretudo, adicionei um ato concreto ao meu conceito de liberdade, coisa que deixou o meu pai muito chateado. 

Já contei isto e hoje repito-o porque ele fez o mesmo há tempos. Um vizinho pediu-lhe que albergasse três coelhos numa gaiola vazia do galinheiro e o meu pai disse que não havia problema, mas esclareceu que não se responsabilizava pela sua alimentação, porque está velho e doente e já não tem forças nem pachorra para tratar de bichos e o outro disse que não havia problema, ele próprio iria lá cuidar dos coelhos. Apareceu duas ou três vezes e depois nunca mais.

O meu pai disse:

– Ah sim!

E soltou os coelhos.

Vejo-os todos os dias aos saltos na fazenda, enquanto vigio o meu pai.

Após uma ida às urgências – eu diria inesperada, mas todas o são – ele está agora acamado em casa, a recuperar com lentidão, tanta lentidão, e os coelhos emanciparam-se, tomaram conta da terra, passaram dos poios de mato para a horta e já comeram as alfaces roxas todas, folha por folha, mas o que mais irrita o meu pai é a suspeita que ele traz desde o dia em que os soltou de que alguém na vizinhança anda a tentar abatê-los a tiro de pressão de ar.

– Eu sei quem é – disse-me, na penumbra do quarto. – Quando puder andar, vou avisá-lo.

Eu franzi a testa diante da luz que luta para não se apagar e reagi com toda a minha desumanidade:

– Não se preocupe. Eu trato disso.