Todas as coisas do mundo

Um momento pode guardar todas as coisas do mundo – a luz e a sombra, a esperança e o desencanto, o amor e a solidão, a beleza e o horror, o tempo e a morte. Há momentos que guardam a poesia e a poesia, como todas as artes, ajuda a ultrapassar o desconhecido, porque nos permite ir ao mais fundo que a vida tem: um encontro de amigos, um abraço, um mergulho no mar, o silêncio fértil de uma oração, um por-do-sol, coisas pequenas que, de tão comuns, passam ao largo dos nossos desejos.

Há horas que não cabem nos sessenta minutos que a hora tem. São infinitas. Resumem todas as coisas do mundo. As pontas dos dedos de Deus desenham, às vezes, na fronteira das nossas vidas, sinais que nos fazem prometer que não vamos desistir de procurar o que vale a pena, de fazer o que vale a pena, de lutar pelo que vale a pena.

Nessas horas, vivemos a vida inteira, encontramos o fio que une o princípio ao fim, o silêncio à palavra certa, o olhar à eternidade. Bebemos a seiva do mundo e embebedamo-nos de Beleza. A Beleza salva, sabia? Salva-nos.

Habitamos um milagre. Nas montanhas que nos guardam as casas, esconde-se um sol que vai iluminar outras paragens. No mar que nos afaga o chão, mora um destino de luares e de marés que nos trazem o mundo. Todas as coisas do mundo. Aos olhos dos nossos balcões, desfilam todas os perfumes, todas as cores, todos os cantos. Todas coisas do mundo.

Se somos felizes? Não sei. Queremos sempre o que não temos: o sol quando chove, a chuva no verão, o frio em agosto, o aconchego de quem não está. Perdemo-nos, muitas vezes, na espera do que não chega e perdemos (eu perco, muitas vezes) os instantes infinitos que guardam todas as coisas do mundo.

Nos momentos de infinito que este lugar me proporciona, prometo, sempre, começar de novo, aprender a parar e a inebriar-me de beleza e a deixar-me inundar por todas as coisas do mundo que alguns instantes me provocam. O problema é que, na loucura dos dias, esqueço-me das promessas e do lume do por-do-sol e da carícia dos dedos do mar e do pincel brilhante do amanhecer e de.

Que eu saiba aprender a fechar o peito às armadilhas da vida, à ânsia de dar tudo, de fazer tudo, de ser tudo e de me esquecer de viver. Que eu saiba guardar todas as formas do mundo que os instantes de Beleza me permitem. Que eu saiba ficar, no assim dos dias, a saborear todas as coisas do mundo, em breves instantes de felicidade. Fica comigo? Vamos resgatar os sonhos de todas as coisas do mundo?