A fábula do Coração-Sozinho

Faz hoje 19 anos que, pelo menos na versão oficial dos Estados Unidos, dois aviões, desviados por terroristas árabes se atiraram contra as chamadas Duas Torres, no célebre  World Trade Center, nos Estados Unidos. Mas não é sobre isso que quero falar nesta crónica. Sobre isso já muito se disse e desdisse e muito terá ficado, ainda, por dizer. Nem quero falar do Covid 19 ou do Corona Virus. Desse já nós estamos mais do que fartos. Por isso vou oferecer-vos uma fábula originária de Moçambique com aquele sabor muito próprio da sabedoria dos africanos para que cada um de vós, cada um de nós, ao lê-la, nestes tempos difíceis que connosco vieram ter, sem que os pedíssemos nem desejássemos, tire as conclusões que melhor achar.

Intitula-se, a fábula, Coração-Sozinho e começa assim:

O Leão e a Leoa tiveram três filhos e, depois de muitas hesitações para encontrarem os nomes que os distinguissem e pelos quais os pudessem chamar, não encontraram nenhum que achassem apropriado pelo que decidiram que deveria ser, cada um dos filhos, a escolher o seu próprio nome. Um escolheu o nome de Coração-Sozinho, o outro escolheu o de Coração-com-a-Mãe e o terceiro o de Coração-com-o-Pai.

Quando cresceram e chegaram à idade de caçar, o Coração-Sozinho encontrou um porco, apanhou-o e pediu ajuda para o poder transportar para casa, mas não havia quem o ajudasse porque o seu nome era Coração-Sozinho e o porco acabou por fugir.

Tempos depois foi o Coração-com-a-Mãe quem encontrou outro porco.

Apanhou-o e, mesmo sem nada pedir, a mãe veio logo para o ajudar a matar e a transportá-lo para casa e comeram-no ambos.

Coração-com-o-Pai tempos depois, apanhou também um porco. O pai veio logo para o ajudar. Mataram o porco e comeram-no os dois.

Coração-Sozinho encontrou outro porco e, tempos depois outro ainda, e mais outro mas, como não tinha ninguém para o ajudar, ninguém foi em seu auxílio e todos fugiram.

Coração-Sozinho continuou nas suas caçadas, dia após dia, sem ajuda de ninguém. Começou a emagrecer, a emagrecer, até que um dia morreu enquanto que os outros irmãos continuaram cheios de saúde por não terem um coração sozinho.

Uma fábula triste, dirão uns. Uma fábula educativa, pensarão outros, ainda. Uma fábula oportuna, concluirão alguns. Seja como for ela, na ingenuidade de quem a conta e no modo de ser de quem a imaginou, encerra uma, várias lições que, cada um de nós, deveria tirar num tempo  em que o tempo teima em nos impedir de viver, razão pela qual a palavra Solidariedade deveria ser a mais importante de todas.