Dois amigos em África (II Parte)

Mutepa Nada levou o copo à boca e o gesto de levar o copo à boca continha a essência do querer apagar tempo, factos e ideias. O pensamento do negro não vai longe, pensou. Quem lhe tinha dito isto? O pensamento do negro não vai longe... Já não se lembrava. Mas tinha sido alguém da cidade. Sim, só podia ter sido na cidade. Uma cidade de merda. Só uma cidade de merda pode dizer uma coisa destas, pensava ele. Uma cidade de pretos, já se vê. E quem o disse foi alguém como ele. Carvão. Eu sou carvão. Pois é, o pensamento do negro não tem pernas para andar, pensava Mutepa Nada.

– Vamos beber para esquecer – disse Belíssimo João, querendo aligeirar a angústia do amigo.

– Vamos, mano!

Ergueram os copos e brindaram.

Belíssimo João e Mutepa Nada tinham percorrido quarenta quilómetros de bicicleta no dia anterior, sempre em terra batida, cada um com um saco de cinquenta quilos de cebolas e alhos e ananases para vender na cidade. Ficaram extenuados, mas fizeram bom negócio. Depois, passaram a noite nas Esteiras, ao lado do Mercado Central. O objetivo era regressar a casa ao rebentar do novo dia.

As Esteiras são um aglomerado caótico de barracas que funciona como estalagem com pensão completa e alguns extras. Por um preço de nada, um indivíduo bebe, come, dorme e ainda tem direito a mulher, se estiver interessado nisso. É um sítio sujo, fedorento, sombrio e acolhe exemplares das piores espécies de gente, gajos desalmados, rudes, mentecaptos, que bebem até rebentar, armam brigas, provocam incêndios, conspurcam ainda mais o lugar e às vezes, não raras vezes, matam-se uns aos outros ou arrancam olhos e orelhas à falsa fé para vender a feiticeiros mal-encarados.

Belíssimo João e Mutepa Nada passaram, contudo, uma noite tranquila nas Esteiras, tendo até encomendado uma mulher para os servir e ela fez o trabalho sem queixas nem implicações, ficando os três satisfeitos.

O problema foi que ao despertar, pouco depois das quatro da madrugada, viram que as suas bicicletas tinham sido roubadas. Entraram em grande aflição. O prejuízo que era perder as bicicletas! Desnorteados, percorreram o centro e arredores da cidadezinha em todas as direções. Durante horas e horas andaram à procura de pistas, de vestígios, de caras suspeitas.

Na correria, Belíssimo João perdeu um chinelo e mais tarde viria a perder o outro. Mutepa Nada engatou a camisa num arrame e ela rasgou-se de alto a baixo na parte da frente e mais tarde viria a rasgar-se também nas costas. A vida é passado, presente e futuro ao mesmo tempo, independentemente do ponto a partir do qual se começa a contar. Não encontraram nada. O que se perde em África, perde-se para sempre.

– Vamos regressar de chapa – sugeriu Belíssimo João.

– É muito caro – disse Mutepa Nada. – Vamos a pé.

Quando deram por finda a busca, já no fim do dia, encontravam-se na estrada do aeródromo, diante da Barraca Brazil. Estavam enterrados quase até aos tornozelos no pó do caminho e só aqui Belíssimo João percebeu que estava descalço do pé esquerdo ou talvez do direito – ele nunca atinara com isso de esquerda e direita – e Mutepa Nada reparou na camisa rasgada. Estavam sujos, rotos e suados como vadios.

– Vamos beber qualquer coisa – propôs Belíssimo João, apontando para a Barraca Brazil, de onde saía música altíssima e cheia de ritmo.

Ele era otimista por natureza. Não se ralava com nada para além do básico e por pouco tempo. No fim, aceitava tudo como bênção divina, fosse bom ou mau, e ria às gargalhadas.

– Uma garrafa de gin – sugeriu o amigo.

Mupeta Nada era mais jovem do que Belíssimo João – tinha 19 anos e aquele 28 – mas possuía um espírito de velho acossado, desconfiado e vigilante, uma alma rancorosa, agrilhoada e sem esperança, um olhar amargo, frio e distante. Preocupava-se com tudo em demasia e a toda a hora.

– E refresco também – disse Belíssimo João. – Para misturar.