Os tempos do tempo

Não sei ainda de quantos tempos se faz uma vida, mas sei já o suficiente para sabê-los muitos. 

Desde aquele tempo quase incerto de uma infância no cimo da escada, coordenada pelas nossas sardas atrevidas de sol, pelo nosso ar a desafiar a eternidade desses dias que pareciam não ter fim. Uma infinitude que se anunciava especialmente quando era verão e a vida quase parava na inclinação das sombras que se faziam relógio. Um relógio quase tão certo como aquele que desenhávamos a caneta no pulso. Sempre na mesma hora, entre os ponteiros tortos pela instabilidade da BIC laranja ou Cristal. E, ainda assim, até mesmo esse relógio tinha duração certa de um dia e terminava dentro da banheira com a mãe a esfregar a esponja contra a nossa pele e a ralhar de uma ideia tão parva. Quem podia congelar um relógio ao pulso quando todos sabiam que os relógios se fazem de movimento, do constante movimento das horas? Aquele ali só cedia à água e à espuma, e mesmo assim findava a sua existência na teimosia da hora desenhada por nós.

Mas, nesse tempo, a nossa crença no passar das horas era remota e instável. Não pensávamos nessa coisa do futuro e do que ele traria por dentro, a não ser naquela perspetiva de liberdade que a idade adulta parecia então transportar. Não ter mais que fazer isto ou aquilo porque "estou mandando". Era assim que terminava a nossa autodeterminação e sem negociação possível. Que cimeiras e plebiscitos não eram práticas de se trazer para dentro da educação da casa.

Chegaria outro tempo em que nos rebelaríamos contra a disciplina imposta sem referendo. O corpo mais crescido já permitia outros atrevimentos para fora da soleira do quintal e a punição infantil já parecia deslocada quando a nossa cara ficava quase ao nível de quem nos impunha a lei. Frente a frente, quase entre iguais. Também pela fita métrica se pode medir a capacidade de uma autonomia e vontade.

Ganhava-se então um tempo em que passaríamos a ser mais ou menos donos do que se chamava destino, mesmo que o destino não seja coisa para se negociar. 

Viria depois o tempo do amor e do desespero, o tempo daquela bola lançada em cheio no peito, sempre sem defesa. Nós de coração aberto, de costas para a baliza, e o remate certeiro até nos calhar uma eventual vitória.

Depois desse primeiro jogo, os tempos do tempo tornam-se mais velozes, tão distantes das sombras do quintal, que continuam a povoar a nossa memória, mas já de outra forma e dentro de um outro ritmo a correr em direção ao fim.

Percebemos que passar pelo tempo deixa marcas na pele e também naquele dentro que se não vê, mas que se faz visível das mais diversas formas.

O tempo é mais veloz e nós mais lentos na guerra e na cura, na alegria e na tragédia. Há quem lhe chame a lei da compensação.  Mas não sei se será isso, ou se será a necessidade de um equilíbrio de forças. De repente, já não faz sentido congelar horas a caneta no pulso, mas talvez se possa escrever e sentir contra o tempo.

Por exemplo, escrever contra estes quinze meses de falta e de falha depois da morte. Escrever contra a saudade é uma forma de desenhar relógios a caneta no pulso. É talvez a única forma de congelar esse minuto exato antes da respiração final. E ficar assim, pulso em riste, contra a morte. A salvo da água e da espuma, a salvo dos tempos do tempo. Ainda a tempo de um abraço que podia ser sentido por ambos os lados do tempo.