Viver de ouvido

"Eu só sei viver de ouvido. Nunca leio as instruções". No meu caso, a identificação com esta música de António Zambujo foi imediata. Até poderia dizer que esta é a síntese da minha mais profunda natureza. 

Viver de ouvido e sem instruções tem os seus riscos e custos, mas há também qualquer coisa de irresistível em deixar-se ir pelo som, sem mais preocupação do que acompanhar o ritmo do coração e da pele. E talvez sinta isto porque gosto de música, não de um ponto de vista de alguém que seja capaz de ler pautas, de saber sobre música a fundo, mas de alguém que não dispensa uma banda sonora para os dias, para as alegrias e tragédias, para aprender a ler mapas e para descobrir geografias.

Agora que penso nisso, a minha vida podia ser contada pelos vários encontros com a música. Desde a fase inicial em que acompanhava a mão incerta do meu pai a conduzir a agulha no gira discos, até a adolescência na casa de amigos que tinham móveis inteiros de arrumar discos e fazê-los tocar.  Eram objetos místicos, assim disfarçados de coisas comuns, quase mobília, até exercerem essa magia de fazer surgir a música das entranhas de madeira e por mecanismos que não diluíam por inteiro o ruído. Perfeitos e imperfeitos como as coisas verdadeiras, como as coisas que valem a pena.

Com o meu pai, fiquei a conhecer Carlos do Carmo e todos os poetas que ele cantava. Também conheci os poetas de Amália. Com os amigos, descobri a não muito elevada música dos anos 80 e 90, com os cantores estranhos que as entoavam embrulhados no gosto duvidoso daqueles anos.

Pelo meio, a geração anterior ainda introduziu alguns franceses na minha aprendizagem musical.

Como em tudo na vida, fiz depois o meu caminho, sempre um pouco marcado pela abertura e elasticidade inicial, mas já admitindo outros voos pelo jazz e pela música clássica. E dancei contigo "I'm your man", do Cohen.

Os meus amigos conhecem-me pela facilidade com que decoro letras e músicas, e não há nenhum que me seja próximo que ignore o quanto eu gostaria de ter aprendido música a sério. Ou ter, pelo menos, aprendido a tocar um instrumento.

Durante anos, andei à volta do meu pai para que me comprasse uma guitarra. Uma meta constantemente adiada.

Mas, esta semana, movida por um qualquer entusiasmo, finalmente comprei uma guitarra. Está mesmo aqui à minha frente e é tão bonita. Ontem passei quase toda a manhã a tentar afiná-la pelos tutoriais do YouTube. Aliás, é também pelo YouTiube que estou a pensar aprender a tocar.

O YouTube é muito parecido com aquela filosofia de aprender de ouvido e serve, que nem uma luva, a quem não gosta de ler as instruções. O YouTube tem quase tudo para que, mais uma vez, volte a falhar.

Pelo YouTube, posso continuar a afinar o ouvido e a ser desafinada como sempre. E agora até já tenho o instrumento que me garante a falha com toda a propriedade. Nunca estive tão próxima do meu ouvido. Isto mesmo dizem-me os dedos a fazerem-se às cordas e aos acordes. É agora! Aqui vou eu a viver de ouvido. De novo!