A falha estável

Pensam alguns que falhar seja caraterística de uma idade ainda pouco treinada ao gesto das mãos, do coração e da cabeça. Uma idade assim inicial, na qual um qualquer processo de aperfeiçoamento está necessariamente em curso e a cumprir a curva de um movimento a caminho, se não da perfeição, pelo menos a caminho de uma geografia menos falível.

Esta ordem evolucionista da vida, pelo menos daquela que mais implica o espírito e a pele, e o que circula entre uma e outra, não cumpre o percurso de amadurecimento dos ossos, que crescem até um determinado momento certo, que provocam quedas imaginárias durante o sono e dores por serem material pouco flexível e, ainda assim, esticarem até uma idade adulta, até o nosso tamanho real e mais constante. Aquele tamanho que balizará o nosso espaço físico no mundo.

Um dia essa estabilidade física cessa num ponto que determinará o acesso a prateleiras altas, a janelas, a objetos que ficam dentro ou fora do alcance da mão e que vão precisar para sempre de degraus, de cadeiras, da ajuda dos fisicamente mais altos para ficarem acessíveis.

Mas o crescimento por dentro, aquele que nos permitirá ficar mais aptos, menos falíveis, para as coisas não físicas, processa-se de forma mais lenta, e, por alguma razão inexplicada e inexplicável, nunca se concretiza plenamente. O que é trágico porque é precisamente aquele crescimento que, na sua falha, nunca se irá resolver com degraus, com cadeiras, com rampas de acesso e com a ajuda dos mais altos.

É uma espécie da falha estável. Aqui a contradição faz todo o sentido, sobretudo quando se fala dessas coisas profundamente humanas que nos fazem ter a mão como pata nas coisas do mundo. Haverá sempre uma pata mais ou menos inapta e inábil a fazer de nós este animal pouco certeiro e hábil, pouco dado a certezas ou a coisas certas.

A falha estável não acompanha o crescimento dos ossos, isso sim é uma certeza. Tão certa como a pata que agarra sem saber agarrar, sem poder agarrar, que permanece nesse ponto em que será sempre difícil segurar e acertar o alvo e o coração. Um relógio disfuncional, sempre a tentar a hora certa e a falhar o alarme. Não há como acertar o coração ao ritmo do mundo. A falha estável será a primeira natureza depois da nossa natureza física. Às coisas altas, teremos sempre os mecanismos e os artifícios aptos à mão. Para acertar nas coisas que não se chegam por degraus, teremos sempre a falha estável e a tentativa instável de a evitar e ter a certeza de falhar.