Hagia Sophia de Constantinopla

Um clamor universal alastrou-se no ano do covid 19 por causa do mais célebre monumento religioso que o Imperador Justiniano, sobrinho do Imperador Justino, ergueu na cidade criada por Constantino, Imperador de Roma e fundador da segunda Roma no Oriente, dando-lhe o seu nome, a “polis” (cidade) de Constantino. Nestes dias, o novo “sultão” de Istanbul Recipt Erdogan, acedeu ao pedido dos seus revolucionários e, procurando ganhar eleições, decidiu transformar a basílica multisecular dos ortodoxos em mesquita, convidando até, diz-se, para a sua abertura na sexta-feira, 24 de julho o Papa Francisco.

O Imperador Constâncio, filho e sucessor de Constantino, dedicou em 360, uma igreja dedicada à Sabedoria Divina, em grego Hagia Sophia, no lugar onde antes se erguiam templos pagãos, este edifício foi queimado em 404, no tempo do Imperador Arcádio, por uma revolta surgida na cidade protestando contra a Imperatriz Eudoxia por ter exilado, o sábio e popular Patriarca São João Crisóstomo, o “Bouca de Ouro”. Esta igreja foi reconstruída pelo Imperador Teodósio II no ano 415 e, novamente, foi destruída no ano 532 por ocasião da revolta popular chamada NIKA, no reinado do Imperador Justiniano e de sua esposa Teodora. Com a vitória obtida, o novo Imperador, construiu a nova e maravilhosa basílica que chegou até nossos dias, considerada a mais célebre igreja da cristandade. Justiniano convidou os arquitetos Anthemius de Tralles, matemático e físico, e Isidorus de Mileto, grande geómetra da antiguidade e dez mil operários, tendo sido inaugurada a Basílica no ano de 537. Nunca se tinha construído um edifício tão grande que, em nossos dias, era equivalente a três campos e meio de futebol. 104 colunas vieram de célebres templos pagãos, do Artemísio de Éfeso, do templo de Diana, de Baalbek na Síria, de Isis e Osíris no Egito e de Roma. Justiniano queria que a Basílica fosse o monumento mais solene e magnífico que se tinha construído depois da criação do mundo. Uma das suas maravilhas é a cúpula com 40 janelas que parecem suspensas do céu por um fio invisível. Na galeria superior realizaram-se dois Concílios ecuménicos (553 e 680). No interior tem diversos mosaicos, representando Cristo, a Theotokos (Mãe de Deus), São João Batista, santos do oriente e Imperadores e Imperatrizes bizantinos.

A Basílica foi consagrada a 27 de dezembro de 537, resplandecente e magnífica como nenhuma outra; a tradição transmitia a ideia que o mais belo templo fora construído por Salomão em Jerusalém. Quando o Patriarca e o Imperador entraram na Basílica para a Santa Liturgia, ao chegarem ao centro sob a estupenda cúpula, Justiniano exclamou: “Salomão venci-te!”

O convertido príncipe Vladimir de Kiev enviou os seus emissários a visitarem os santuários cristãos, para depois escolher a mais bela liturgia para a sua nova cidade e reino na Rus’; quando regressaram os embaixadores disseram: “Nós não sabíamos se estávamos no Céu ou na terra... Na terra não há tal esplendor e beleza. Só sabemos que Deus habita ali entre os homens, o seu serviço é fazer para que as cerimónias sejam assim realizadas nas outras nações”.

O império otomano e a sua maravilhosa cidade, cobiçados por tantos inimigos, foram capturados pelos turcos seljúcidas a 29 de maio de 1453, tendo o muçulmano Mehmet II dado ordem para transformar a Hagia Sophia em mesquita. Em 1847 o sultão Abedubmecit confiou a um arquiteto italiano o restauro do edifício. Desde 1935 a Basílica foi transformada por Mustafa Kemal, que recebeu o título de Ataturk (pai dos turcos) em museu e os mosaicos foram restaurados. Foi neste período que a visitei mais de uma dúzia de vezes, sendo a primeira em 1962 com a École Biblique de Jerusalém.