Quantas são?

Presumo que a democracia interna lá para o lado da família socialista local seja um gozo sem fim. Foi com esta ideia que fiquei quando soube que no passado sábado houve duas eleições na dita família: uma primeira para a presidência dos vários géneros e outra para a presidência do género (como as próprias adoram dizer) feminino. Entretanto, soubemos os resultados da eleição do presidente (convém dar desconto de época de saldos ao número revelado), mas nenhum dos dois jornais diários impressos avançou com os resultados da eleição da "presidenta" (para usar a designação com que Lula carinhosamente brindava D. Dilma, companheira de esquemas). E tal é estranho, uma vez que a senhora representante do género feminino também era candidata única.

Enquanto cínico com pouca paciência para modas e discursos de ocasião, sempre me fez confusão a política que promove a segregação disfarçada de movimento anti-segregação. E menos paciência tenho quando essa separação se baseia no sexo, como se as mulheres precisassem de se conformar com chá e bolinhos a meio da tarde. No PS, pelo visto, isso é uma certeza, já que certos assuntos lhes ficam reservados enquanto, suponho, os homens do partido ficam livres para os restantes assuntos como jogar à bisca, imaginar planos e estratégias, repetir infinitamente a palavra pessoas ou despachar para longe o Sr. Emanuel Câmara.

Claro que é um indício este apelo à participação das mulheres. Aliás, é tão forte que depois há que orientar essas mesmas mulheres para o clube do Bolinha ao contrário, onde homem (ou género masculino) não entra, a não ser para dar a bênção e apadrinhar a tomada de posse de meia dúzia de fanáticas. Ainda assim, reconheça-se um ou outro benefício associado ao papel em causa: o cargo de "presidenta" das Mulheres Socialistas (para quando uma secção para cada um dos mais de 50 "géneros" já identificados?) vale um lugar na Assembleia, subsídio de férias, programa de rádio, cartão Continente e a certeza de que as questões ligadas à igualdade entre sexos passarão pelas mãos certas e não pelas erradas. O que não deve ser pouco. Repare, caro leitor, que até hoje os resultados da eleição são desconhecidos o que só pode significar que as mulheres socialistas não têm mesmo mãos a medir. Ou, num limite, votos para mostrar.

A liga dos segundos

Há muita gente cansada do Prof. Marcelo e da sua ambiguidade. E farta dos afectos que não resolvem nada e do apuramento de responsabilidades que nunca apura responsabilidade nenhuma. Mas as alternativas, de momento, são poucas quando PS e PSD estão de conluio sobre a recandidatura do actual Presidente. O que sobra então?

Sobram as franjas. E um campeonato pelos lugares seguintes, um campeonato de segunda com argumentos e problemas de primeira. Porquê? Porque é aqui que se joga o descontentamento, a oportunidade e o possível crescimento eleitoral, ainda que efémero e/ou adulterado, de pessoas e/ou partidos com [ainda?] pouca expressão. E é legítimo, perante certos cenários, que alguns o tentem. Parece difícil? Sim. Mas se Marcelo levar 60-65%, há ainda 35-40% em disputa. Se levar menos, há um jackpot enorme à espreita.

Daí a importância destas eleições para os pequenos da equação, como o Iniciativa Liberal e o Chega, conotados com a direita e já com candidatos conhecidos, e para os médios, como o BE e o PCP, conotados com a esquerda, mas ainda sem nomes no terreno. Nenhum terá como veleidade derrotar Marcelo, o vencedor anunciado, mas os objectivos serão globalmente os mesmos: agregar o máximo de descontentes e, no caso inteligente, impedir André Ventura de chegar ao segundo ou terceiro lugar da contenda. Neste momento, é impossível dizer como a crise vai mudar o jogo político, quando os únicos partidos que crescem são o PS, o Chega e o IL, por razões diferentes.

Com pelo menos um candidato comunista anunciado, há espaço à esquerda para alimentar o circo do Bloco, do PS descamisado, do Livre, do PAN e de outros radicais de facção. Ana Gomes preenche os requisitos. À direita, temos por ora os dois exemplos mencionados, porque o CDS não vai arriscar a extinção.

A caça aos descontentes começou. E há uma oportunidade pela frente que vai ser empolada e acicatada pela crise. Certo é haver um vencedor anunciado, Marcelo, que usará o segundo mandato para relembrar aos mortais que o homem é o homem e as suas circunstâncias. Fora disso, há um mar de incertezas, com muito para ganhar e perder, de acordo com perspectivas, análises e pontos de vista. Mas aconteça o que acontecer, os tempos serão difíceis. E o país não volta a ser o mesmo.