Tudo o que é vida desaparece

O homem ficou a manhã inteira no restaurante a escrever, sentado à mesa, ao pé da janela grande. Houve momentos em que escrevia sem parar, freneticamente; outros em que estava ausente, olhando para qualquer coisa indeterminada dentro do recinto ou lá fora na praça; outros ainda em que a escrita se misturava com a ausência e era lenta. De vez em quando, esticava os braços e as pernas, abria a boca e ficava a dormitar. Também dedicava algum tempo a afiar os três lápis que usava para escrever, todos com tamanhos diferentes.

As horas passavam e com elas passava a vila.

Às 10:30 já toda a gente sabia que o homem estava a escrever e diziam que era o ‘capitulo final’, embora ninguém compreendesse ao certo o que isso significava. Vários miúdos fizeram escadinha com as mãos à beira da janela ou subiram nas costas uns dos outros para vê-lo e depois correram pela vila e espalharam a notícia.

– O homem está a escrever o capítulo final.

O doido da vila abeirou-se e ficou a espreitar durante muito tempo, com os olhos desorbitados e um sorriso alucinado, onde se ocultava o espetro de uma antiga sabedoria. Depois, veio o padre e tomou conhecimento do caso em silêncio. A seguir foi a vez da viscondessa, que num assomo inesperado à varanda do seu imponente e desconjuntado palácio avistou o homem no restaurante a escrever, avistamento este que lhe provocou um forte arrepio no corpo, com epicentro localizado no baixo ventre. Pouco depois, o presidente do município ouviu falar do assunto e foi ao local confirmar. O mesmo aconteceu com o doutor, que entrou no restaurante às 13:15.

O homem que escreve é parecido comigo, tal e qual, e tem um cão preto e branco como um border collie, mas nem o cão é desta raça, nem o homem sou eu.

Ao longo da manhã, o cão saiu três vezes debaixo da mesa e foi dar uma volta pela praça e arredores. Da primeira vez, ao regressar, pôs-se a ladrar e o homem fez-lhe um sinal com a mão para que se calasse. Da segunda vez, apareceu com um grupo de amigos e fizeram da praça um campo de diversão, mas acabaram todos a brigar, arreganhando os dentes e investindo e ladrando uns para os outros como se tivessem contraído raiva sem mais nem menos. Da terceira vez, o cão voltou acompanhado de dois miúdos, que se penduraram na janela e ficaram a ver o homem a escrever.

De tanto estar no mesmo sítio, o homem acabou por passar despercebido, até que toda a gente o esqueceu. A certa altura, muito depois da hora do almoço, o dono do restaurante apercebeu-se que o lugar do homem estava vazio. O caderno, porém, continuava em cima da mesa, fechado. O dono do restaurante pensou que ele tinha ido à casa de banho, mas ao cabo de uma hora não havia ainda sinal do homem nem do cão. Nem ao cabo de duas horas, nem de três...

– Desapareceram – disse ele, em murmúrio.

E ao murmúrio acrescentou:

– Tudo o que é vida desaparece.

Aproximou-se da mesa e fixou o caderno, cuja capa era vermelha, em pele de avestruz. Sentiu um terrível impulso para o abrir, um impulso indomável, selvagem e, contudo, suave como um peixe colorido a nadar num aquário encantado. Esticou a mão, moveu a capa e escrever queima a alma de quem escreve, mas no fim fica-se a saber que não havia nada para dizer, é como morrer, cada palavra uma morte, cada frase uma soma de mortes – não são carateres, meus senhores, são mortes – e depois não sobra nada, nem ponta de verdade, nem vestígio de mentira, por dentro fica tudo vazio, tão vazio como um corpo sem ossos, incapaz de seduzir, incapaz de fingir, um lugar desabitado, inóspito, é assim a escrita, é assim a alma de quem escreve e tem poesia, sim senhor, tem muita poesia, mas não tem graça nenhuma, pois a vida não é isto, podem crer, a vida nunca é a palavra escrita, nunca.