Candé e a desumanização

Bruno Candé, 39 anos, ator, pai de três filhos, com idades compreendidas entre os seis e os dois anos, foi morto com quatro tiros à queima-roupa em Moscavide.

Do outro lado, do lado de quem atira a matar, estava um outro homem, enfermeiro aposentado, 80 anos.

O saldo é uma vida interrompida pela violência e pelo racismo às mãos de uma outra vida que, pelos vistos, não lhe chegou o percurso matemático e real de oito décadas para uma humanidade capaz de impedir o gesto frio de matar. O gesto calculado de um ódio que se materializou à vista de todos na rua de uma cidade, num calor de um verão que não foi suficiente para afastar a maldade, o ódio. Não foi suficiente para impedir o gesto contra o outro, que neste caso era também negro. A cor da pele devia ser apenas isso: uma caraterística como ter olhos azuis, ser baixo ou alto, e não uma razão para o exercício de um ato vil e infame.

Mas confesso que me choca a idade do homem que matou Bruno Candé. Choca-me que 80 anos de vida vivida não tenham representado nada em termos de avanço civilizacional e humano.  Estamos perante um ódio primário que não se alterou, talvez até foi apurado pelo tempo. Tão maior quanto os anos somados à vida. 80 anos para chegar a uma tarde e matar à queima-roupa, sem hesitação, sem arrependimento.

Há uma frase no livro 'As Intermitências da Morte', de José Saramago: "saberemos cada vez menos o que é um ser humano". Sim, perante isto é difícil descortinar o humano, penetrar no que tece um coração durante 80 anos, saber da substância exata que circula nas veias em oito décadas, saber do peso exato de um corpo que caminha entre os demais e apenas lhe conhece a superfície, a cor.

80 anos a apurar um ódio visceral. 80 anos a remoer o mais baixo de uma humanidade a que lhe falta a essência para ser digna desse nome. 80 anos a treinar a mira, a apurar o gesto, a esperar o momento certo para atirar certeiro e deixar a morte acontecer animada pelo ódio.
Bruno Candé morreu. Bruno Candé era negro e português. Bruno Candé tinha sonhos e filhos. Bruno Candé tinha uma vida que foi interrompida pelo ódio racista que muitos dizem não existir em Portugal.

Bruno Candé estava sentado com o cão. Um homem de 80 anos aproxima-se e dispara. O cão foge perante o horror. A gente que caminha impede a fuga do homem que matou. Mas já é demasiado tarde para travar as balas que acertaram em cheio numa vida que foi subtraída à falsa fé. Nem a corrida do cão, nem o coração parado pelos disparos, nem a justiça das mãos que impediram a fuga do homem devolvem o essencial: a vida. Fica apenas o ódio, um rasto de ódio numa tarde de verão.

Raquel Gonçalves escreve
à segunda-feira, todas as semanas