Grito dos Bispos da Bacia do Mediterrâneo

A 25 de fevereiro, antes de a epidemia do COVID 19 ter grassado no sul da Itália, os Bispos das duas margens do Mediterrâneo reuniram-se na cidade de Bari, onde repousam as relíquias de São Nicolau, Padroeiro da Rússia e desta zona marítima, ao terminar o G20, para serem vozes proféticas, de liberdade e geminação entre as diversas igrejas, devido a inteiros povos destas zonas serem espezinhados e empobrecidos para interesses de poucos. Os vários Bispos, sob a direção de Pierbattista Pizzabala Administrador Apostólico do Patriarcado Latino de Jerusalém e o Cardeal Vinko Puljic, arcebispo de Sarajevo, apresentaram as suas igrejas que ficaram pequenas minorias, feridas por muitos sofrimentos, mas que sabem construir vias alternativas, de paz, desenvolvimento, igrejas que carregam as contradições da bacia do Mediterrâneo e desejam tornar-se voz profética de verdade e liberdade. O documento final do G20 foi entregue ao Papa Francisco, tendo nele participado 58 pastores sinodais das duas margens que no tempo do Império Romano era conhecido como “Mare Nostrum” (Nosso Mar) e no século XX se tornou no mar dos náufragos.

No diálogo de domingo na Basílica de São Nicolau, os bispos admitiram” ser necessário a ousadia de denunciar o mal que causa a pobreza e cria situações estruturais de injustiça, as guerras comerciais, a fome de energia, as diferenças económicas e sociais que tornaram esta bacia do Mediterrâneo centro de interesses enormes. O destino de populações inteiras serviu para o interesse de poucos, causando violências que são funcionais a modelos de desenvolvimento criados e sustentados em grande parte pelo Ocidente. No passado as igrejas também, principalmente no período colonial, favoreceram tais modelos.” Hoje, referem os bispos, pedimos perdão, em particular, por termos entregue aos jovens um mundo ferido”. São as Igrejas do Norte de África e do Médio Oriente a pagar o preço mais alto.” Dizimadas em número não são, porém, igrejas que renunciaram. Mesmo tendo afrontado enormes dificuldades e até perseguições, permanecem fiéis a Cristo”.

A “Via Sacra” da cruz é própria da experiência das Igrejas do Mediterrâneo, o inverno de homicídios e destruições nos Balcãns, a expulsão dos ortodoxos da Turquia, o genocídio dos arménios em Istanbul, os dramas do Médio Oriente, “são formas de violência, conflitos e divisões de todos os géneros, causados em parte pelos Países ricos”.

Os conflitos e as divisões são também uma das causas do fenómeno migratório. As Igrejas estão ao lado dos “ milhares de  migrantes que fogem de situações de perseguição e de pobreza” sublinha o Arcebispo de Jerusalém; o Cardeal de Sarajevo acentua  que a comunidade eclesial tem “ o coração despedaçado pela partida de muitos jovens devido a guerras, injustiças e miséria” numa zona mediterrânea onde as sombras  parecem prevalecer sobre as luzes”, apesar disso, as Igrejas trabalham para  que cresça “ a fraternidade e a solidariedade humana, testemunhando o estilo cristão de estar dentro das realidades, por exemplo, nas escolas, nos hospitais, nas inumeráveis iniciativas de solidariedade e de proximidade dos pobres”. Como bispos são os mais entusiastas na promoção do diálogo ecuménico e inter-religioso.

Uma das propostas do encontro foi a de “aproximar” as Igrejas das diversas margens, com a geminação de dioceses e paróquias, encontro de sacerdotes, experiências de seminaristas, formas de voluntariado.  Afirmam alegrar-se com as visitas às suas comunidades, para constatarem que não estão sós, mas têm comunidades que estão prontas a estabelecer relações de fraternidade, “para construir um percurso comum e fazer crescer nos nossos contextos dilacerados uma cultura de paz e comunhão”.

O Papa Francisco escreveu que o crucificado está no centro da fé católica, “a cruz é sinal de amor nu perante o mistério de Deus, principalmente o mistério da vida e da morte é ponto de referência para todos os crentes, para compreender o que nos diz o nosso tempo agora”.