Porto Santo

Guardo, da ilha, o silêncio. Interrompe-o o cantar rouco de um galo que me devolve o tempo. Há mais de quarenta anos, num tempo sem intenção, a vida estendia-se pela eternidade. Nesse tempo, a vida sonhava-se feliz e o mundo era nosso. Nesse tempo, o verão era azul e tinha cheiro a cardos e a feno. Nesse tempo, bastava-nos saber que o dia era o que nós quiséssemos, que éramos capitães de uma areia só nossa, que havia sol e gargalhadas. 

Vou buscar esse tempo, sempre que volto ao Porto Santo. E, de todas as vezes, que me permito escutar o silêncio, a minha memória volta à casa do Penedo, a um cacho de uvas que era preciso dividir por muitos, ao cheiro do pão quente que se ia buscar à noite, aos amigos que a vida e a morte foram levando.

Começávamos em junho, assim que a escola acabava, a sonhar com o Porto Santo. Descarregávamos a casa no cais (e vinham as panelas e os pratos e as toalhas e os lençóis e os colchões e as chinelas e um vestidinho para a missa e tudo aquilo que os pais imaginavam que havia de ser preciso). Trazíamos os livros e as cartas, a viola e a alegria.

E bastava pousar os pés no cais (o velho) , para nos esquecermos da Travessa e das lascas de bacalhau (salgado, o bacalhau!) que tentávamos comer para não enjoar.

Não era preciso mais nada para sermos felizes: nem televisão, nem telemóveis (sabíamos lá que havíamos de ser tão dependentes destas coisas!), nem roupas de marca, nem nada… Só um fato de banho, umas chinelas e uma toalha que levávamos num rolinho debaixo do braço, como víamos fazer aos mais velhos… Bastava-nos saber que estávamos em férias e que era preciso aproveitar cada bocadinho de sol, de mar e de areia. 

Guardo, da ilha, a inocência. Há qualquer coisa no ar deste lugar que me traz a paz. Talvez  o silêncio que guardei da juventude. Talvez o galo. Ou o mar a tecer rendas de espuma no areal.

Gosto do tempo sem intenção que encontro no Porto Santo. Ali, não estou para, não estou porque. Ali, estou. E deixo-me ser quem era antes da vida me ensinar que o tempo passa a correr, que aqueles que amamos também se vão embora e que o futuro chega depressa e.

Guardo, da ilha, o azul, ou o verde, ou o dourado. Guardo-me na ilha. Guardo a ilha em mim. E isso me basta para carregar a energia de que preciso para viver o resto do ano.