Ai Caramba!

Há umas semanas tive um dia mau. Um dia que começou torto e que podia nunca se ter endireitado, mas endireitou. Assim que pus os pés fora da cama, foi o esquerdo que tocou primeiro no chão. Senti logo que havia algo esquisito no ar. Ou neste caso, em mim. Um cansaço sem razão de ser, um desânimo sem culpado, um desassossego a que a minha avó certamente chamaria de ‘quebranto’. E se estivesse ao pé de mim, colocaria umas gotas de azeite num prato com água e rezaria até que os dois líquidos se fundissem.

Lenta e arrastadamente, segui com as primeiras tarefas do dia. Depois, em modo automático, fui ler o meu horóscopo num site que já consulto há muitos anos. Aconselhavam lá, às pessoas nascidas entre 21 de janeiro e 19 de fevereiro, que houvissem música animada, que procurassem fazer atividades prazerosas e relaxantes, porque o dia seria pesado.

Optei por seguir o primeiro conselho. Coloquei música na aparelhagem da sala e aumentei o volume para (quase) o máximo. Pensei que se os vizinhos de cima podem fazer imenso barulho por causa das obras, eu também podia. Aliás, de um certo modo, também eu estava em obras… a tratar do meu sotão e dos seus moradores, os macaquinhos.

Aos primeiros acordes, cheios de ritmo, e aos primeiros versos, os pézinhos começaram a mexer-se.

“Veio da costa

com sorrir de quem chegava cedo

Trazia histórias

de baleias de marés e medo

E aquela gente

que nunca tinha visto o mar contado

Ouvia tudo

como segredo que é revelado”

E quando chegou o refrão, já eu pulava e rodopiava pela sala:

“Ai caramba!

Aquilo é que havia de ser caramba

Palavra de honra

Só me arrependia do que não fizesse”

Nesse dia, que começou torto, e sem a minha avó por perto para benzer o quebranto, foi a música ‘Ai Caramba’ do grupo Quadrilha que me colocou no eixo e me deu o mote que precisava para partir para a ação: Só me arrependia do que não fizesse!