A mancha

A fotografia mostra uma pequena mancha do tempo da ausência desenhada na capa de um dos treus livros. Não dá para ver qual será, mas está lá a marca de um longo inverno sem a tua presença. A mão que percorria os livros deixou de ter o poder de salvá-los da solidão da casa e da biblioteca. 

A imagem da mancha na capa do livro, que não consigo identificar, parece-se muito com esta espécie de sombra no centro do peito. Uma sombra que persiste nos dias, até mesmo nestes dias em que o sol e o calor fazem do regresso ao mar uma quase normalidade da vida que continua teimosamente a querer correr em frente. E sabemos que é a correr que mais depressa se tropeça e cai de corpo inteiro sobre uma dor. A pulsão está lá mesmo que o mapa nunca indique uma referência de chegada.

 

Às vezes parece que todos os meus passos me levaram a esta ausência. Uma vida inteira para chegar a uma felicidade possível e, depois, à brevidade que afinal acompanha sempre a mortalidade das coisas que não são deste mundo. 

E tu não eras definitivamente deste mundo, ou pelo menos trocavas as coordenadas ao tempo que tiveste de habitar. Não sei se chegaste tarde ou cedo ao amor, à felicidade, e à vida por dentro das coisas que, no fundo e à superfície, são sempre mais importantes do que a soma de todas as outras coisas aparentemente necessárias. Mas só aparentemente, porque, no final, será sempre mais vital aquilo que se transporta por dentro do que aquilo que se movimenta por fora.

Mas tu rias lucidamente de tudo, até mesmo da tragédia. Dizias-te velho desde sempre e, no entanto, havia um miúdo a sair da tua pele e a sorrir rasgado e feliz dentro do teu peito. Foi sempre esse miúdo que me agarrou na mão e que parecia querer encontrar na minha pele uma possibilidade de sobrevivência. Seria sempre difícil não aceitar acreditar na felicidade e na sobrevivência, sobretudo se tu as dizias com palavras tão certas, com gestos tão certos, com uma ternura tão certa que finalmente parecia caber na casa e na possibilidade de habitar o mundo como se ele fosse uma coisa doméstica.

Sim, fazias do mundo uma coisa doméstica de abrir janelas pela manhã e fechá-las pela chegada da noite.  Entre um e outro movimento, a vida verdadeira prometia uma certa imortalidade.

Mas não. Não foi assim e a mancha na capa do livro, que não consigo identificar, cola-se à minha pele com toda a evidência de uma morte.

A mancha alastra desde a ponta dos dedos à última ponta do coração, nesse exato sítio onde todas as coisas começam a terminam. Algures no peito que bate com força contra a evidência de uma mancha que se faz a imagem mais dura dos dias sem a tua mão a guiar a minha credulidade.

Há uma mancha de um longo inverno na capa de um dos teus livros. E há o silêncio dentro dessa mancha que se fixou como única imagem possível dentro dos dias que no exterior parecem quase iguais aos dias de antes. Só que já não.