Amália e Arlinda

Amália Rodrigues teria feito 100 anos no passado dia 1 de julho, a data de aniversário que ela própria escolheu, já que havia dúvidas na família quando o dia certo do seu nascimento e que a avó apenas lhe sabia assegurar que tinha nascido no tempo das cerejas.

Sem uma data fixa, na minha casa era habitual ouvirmos discos da Amália quando alguém se lembrava de os pôr a tocar. E, com a sua voz ao fundo, era a altura perfeita para lembrar a sua colega de profissão e companheira de trabalho no Café Luso: a minha tia-avó Arlinda Vitória. Em criança eu achava aborrecido ouvir o mesmo relato tantas vezes. Até o início das frases era sempre igual e eu já sabia de cor a história da tia Arlinda.

Uma infância de privação e uma juventude sofrida ali para os lados de Alcântara. O medo constante de que descobrissem o que fazia em segredo (que isso de ‘trabalhar na noite’ e cantar fado não era coisa de uma rapariga decente). O gosto pelo palco e um vislumbre de independência quando recebia o seu magro cachet. Era nesta altura que me contavam, como prova do seu talento, que ela tinha ficado em segundo lugar num concurso de jovens cantoras ganho pela Amália. Depois de descoberto o seu segredo, e para fugir à condenação pública que lhe estava associada, a tia Arlinda emigrou para Angola e, felizmente, pode continuar a cantar. De dia tomava conta de crianças e ajudava os que já andavam na escola primária com os trabalhos de casa. À noite, vestia o xaile e cantava fado. Voltou para Portugal nos anos 70 e a partir daí nunca mais atuou profissionalmente. Não se casou, embora tenha tido relacionamentos longos, e não teve filhos.

Amália Rodrigues faleceu em 1999 e a minha tia Arlinda poucos anos antes. Talvez pela repetição frequente da sua história nos momentos em que se ouvia ou se falava da Amália, para mim pensar numa passou a ser pensar na outra.

Fui ao funeral das duas e até isso dei por mim a comparar. Num caso, vi a Basílica da Estrela cheia de gente e vi chegar uma enorme coroa de flores enviada pelo ator Anthony Quinn. Noutro caso, fiquei sentada numa capela funerária na margem sul de Lisboa, enquanto amigos e vizinhos cumprimentavam a família, trazendo ramos de flores muito simples, que pareciam ter sido acabados de colher num quintal próximo.

Uma foi a vencedora do concurso de jovens cantoras e artista internacionalmente famosa. A outra ficou em segundo lugar no mesmo concurso e era irmã do meu avô. Uma já tem, pelo menos, três biografias editadas. A outra vai ter uma biografia e vai ser escrita por mim.