Modorra e uma parede de vidro

Sentado diante da última luz do dia, que realça assombrosamente o contorno das coisas, com uma mão adormecida no colo e a outra cofiando a barba, o padre Inocêncio Noha afunda-se na vastidão do seu universo pessoal, infinito em dor e amor, único entre todos, procurando o motivo basilar da engrenagem da vida, assim como quem vai ao deserto sem provisão de água. 

“U. Jugo de La Raza aborrece-se de forma soberana, porque não vive senão em si mesmo.”

O padre acaba de ler isto num livrinho de um autor famoso, cujas páginas se soltam da lombada à medida que as vira, porque a cola está demasiado ressequida, e põe-se a meditar no assunto, sentado no alpendre junto à parede de vidro, que ele mandou erguer há muitos anos para quebrar o vento do Norte sem perder a vista de lá.

O padre Inocêncio Noha afunda-se na vastidão do seu universo pessoal, único entre todos, infinito em dor e amor, sentado diante da última luz do dia, que realça assombrosamente o contorno das coisas. Com uma mão adormecida no colo e a outra cofiando a barba, procura o motivo basilar da engrenagem da vida, assim como quem vai ao deserto sem provisão de água.

Num livrinho de um autor famoso, cujas folhas se descolam a cada virar de página, porque a cola está demasiado ressequida, acaba de ler o seguinte: 

“U. Jugo de La Raza aborrece-se de forma soberana, porque não vive senão em si mesmo.”

O padre Inocêncio Noha sente um leve peso sobre as pálpebras e vê surgir diante de si um caminho para o céu, ficando, por isso, a pensar que a ocupação diária de Deus talvez consista em reescrever constantemente a sua vontade criadora, procurando alcançar a simplicidade absoluta. Quando a obtiver – a simplicidade absoluta – Deus há de passar um pano sobre a obra, apagar o sol e as estrelas, fechar o dia e a noite e começar tudo de novo outra vez.

“U. Jugo de La Raza aborrece-se de forma soberana, porque não vive senão em si mesmo.”

O padre Inocêncio Noha acaba de ler isto num livrinho de um autor famoso, cujas folhas se descolam da lombada a cada virar de página, porque a cola está demasiado ressequida, e medita no caso, com uma mão adormecida no colo e a outra cofiando a barba. A última luz do dia realça assombrosamente o contorno das coisas. Sentado no alpendre junto à parede de vidro, assim como quem vai ao deserto sem provisão de água, o padre afunda-se na vastidão do seu universo pessoal, infinito em dor e amor, único entre todos, e procura o motivo basilar da engrenagem da vida.

Há quanto tempo está entregue a este jogo? Desde as cinco da tarde, hora a que chegou a casa. Ao passar pelo quarto, retirou um livrinho ao calhas da estante, indo sentar-se no alpendre, com vista para as montanhas, junto à parede de vidro, que ele mandou erguer há muito anos para quebrar o vento do Norte sem perder a vista de lá.

A luz do fim do dia é assombrosa e o padre Inocêncio Noha afunda-se na vastidão do seu universo pessoal, único entre todos, infinito em dor e amor. Tem uma mão adormecida no colo e com a outra vai confiando a barba. Procura, assim como quem vai ao deserto sem provisão de água, o motivo basilar da engrenagem da vida.

Espreita o livro. Vira a página e sente a folha descolar-se da lombada com um pequeno estalido, porque a cola está demasiado ressequida. Lê: “U. Jugo de La Raza aborrece-se de forma soberana, porque não vive senão em si mesmo.” Medita no caso, deslumbrado com a nitidez do contorno de todas as coisas banhadas pela luz que mata o resto do dia. Pesam-lhe as pálpebras, pesam-lhe muito. Fecha os olhos. Abre os olhos. Olha em redor.

Um melro preto vem do jardim e poisa no beiral do alpendre. Fecha os olhos. Abre os olhos. Olha em redor. Depois, lança-se num voo através do alpendre para Norte, mas colide com violência na parede de vidro e cai morto aos pés do padre Inocêncio Noha.

“U. Jugo de La Raza aborrece-se de forma soberana, porque não vive senão em si mesmo.”

Duarte Caires escreve

à quinta-feira, todas as semanas

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