O saco-oráculo

Há dias, fui comprar livros. Finalmente abertas as livrarias, posso voltar a cair no gesto quotidiano de comprar mais livros do que aqueles que consigo ler. 

Não vou, contudo, falar dos livros, mas do saco onde os transportei. Um daqueles sacos de pano amigos do ambiente e tudo. Um daqueles sacos de pano, através dos quais nos levam a desembolsar mais alguns euros, exercida a devida pressão na nossa consciência ecológica. Ninguém quer ser culpado pelo afogamento de tartarugas e pinguins ou pelo degelo dos glaciares. Culpas demasiado grandes para as nossas mãos e para o coração que ainda bombeia humanidade, apesar de todos os avanços, nem sempre no sentido certo. Sobretudo uma humanidade contra os avanços que se fazem no sentido errado.

Mas, digo-vos já, este saco era ainda mais especial, aliás, se ainda fosse possível consultar oráculos para saber a palavra da divindade e a sua verdade, eu consultava o saco.

E o que dizia este saco-oráculo? Simplesmente isto: I just want to read my books and ignore all of my adult problems. Ou, em tradução livre: Só quero ler os meus livros e ignorar todos os meus problemas da vida adulta. Quem não?

Ah, se fosse possível cumprir o saco. Voltar àqueles dias de abrir um livro e não ter preocupação maior que não fosse a posição mais confortável para a imersão na história.

Se fosse possível ainda cruzar as pernas num canto do quintal e voltar à despreocupação natural de quem não tinha mais do que a certeza do dia seguinte. A certeza de que toda a gente estava viva como única opção possível. Não havia ainda a morte e a sua mais do que certa concretização a rondar as sombras e o sol do quintal, limite último do mundo.

Se fosse possível apenas ignorar por dentro do livro o resto e com ele a vida que se foi alterando, que foi trazendo aos poucos um medo mais vasto do que o medo do escuro. Um medo que depois foi substituído pela tristeza profunda de nos sabermos, a nós e aos nossos, "mais mortais do que os outros animais", como tão bem escreveu Herberto Helder.

A poesia continua a saber tudo ou quase tudo de nós. O pior é que também nós, ao crescermos para fora do quintal, ficamos a saber mais do mundo e da sua mecânica. E também da sua fatalidade certa.

Começam a morrer os que nos são mais importantes do que a vida sem eles. E que fazer se não voltar a citar Herberto Helder, nem que seja para discordar da verdade poética. Escreve o poeta: "só morremos de nós mesmos". Se calhar há a sua dose de verdade na premissa, mas há também por dentro de nós a certeza comprovada de que não morremos tanto como morremos por dentro da morte dos outros.

A partir do momento em que percebemos esta verdade de nós, é impossível sentar e ler como se não houvesse mundo lá fora, mas sobretudo como se não houvesse ausência cá dentro.

Há um buraco no meio do corpo onde antes existia apenas a certeza de uma tarde de pernas cruzadas e de um dia a seguir ao outro. Agora há um cemitério que se expande a quase todo o território que trazemos como certeza. Como se só houvesse o mar e a montanha onde deixei que fosses voo para demasiado longe. Os meus problemas da vida adulta são a ausência profunda de um vazio cada vez maior.

Raquel Gonçalves escreve
à segunda-feira, todas as semanas