Dom José Garcia, Bispo de Pemba Paz e Guerra

Nos meus saudosos tempos de Vice-Reitor do Pontifício Colégio Português em Roma, chegou com uma doença considerada incurável em Moçambique, o Bispo de Pemba, antiga Porto Amélia que, devido às guerrilhas que surgiam na então província de Cabo Delgado, lhe provocaram situações tão graves, que os intestinos se tornaram secos e duros como uma corda. Recorreu à cidade de Roma, hospedou-se no Colégio Português e comigo fomos à procura de um médico para o curar. Felizmente que encontramos um clínico que, devido à presença, das tropas descontroladas dos alemães pela Itália, fora acometido por doença semelhante e se ofereceu para tratar o Bispo missionário de Pemba. Dom José ficou curado e, todos os anos, regressava a Roma para consulta e pedir ofertas para a sua querida diocese que se refazia da guerrilha. A figura de Dom José era inesquecível, com uma barba longa e branca que chegava do queixo até ao umbigo, rosto suave, imponente, sempre calado, porque não dominava o italiano, servia-se de mim, a quem chamavam secretário, para o apresentar e pedir auxílio para as suas missões. As religiosas do Colégio Português chamavam-no o “barbone”. Escusado será dizer que o carro do Colégio vinha sempre cheio de ofertas, para além das liras italianas que eram trocadas por escudos. Quando nos anos seguintes chegava a Roma, muitas pessoas e instituições já me tinham perguntado por ele, somente tinham dificuldade em pronunciar a palavra “Garcia” e diziam Dom Giuseppe “Garcha”. Tive ocasião de passar algumas vezes pela sua diocese para retiro a sacerdotes, visitas às missões, batismos e crismas etc. Era uma diocese muito viva, com um clero inteligente e ativo e, até, com uma Congregação de religiosas diocesanas criada por ele, dedicada à educação e caridade. A diocese gozava então de paz e prosperidade, longe dos problemas políticos da capital, Maputo, hoje sofre ataques dolorosos vindos do estrangeiro.

“Estamos a ser atacados”

O atual Bispo de Pemba, Dom Luís escreveu: “Temos sofrido desde há três anos sem saber porque somos atacados. Choramos de tristeza. Vivemos fugindo sem saber para onde.”

Hoje, esta diocese foi invadida e ameaçada pelos “jihadistas”, muçulmanos fugidos do Iraque. O Bispo Dom D. Luís Fernando Lisboa escreveu à Fundação Pontifícia “Ajuda à Igreja que Sofre”: “É uma realidade muito triste que as forças de defesa e de segurança não estão a conseguir conter, se não houver uma ajuda internacional.  As aldeias estão a ficar vazias, as pessoas não estão a plantar, então isso significa que haverá fome e nós temos milhares de deslocados internos”. Segundo a ONU, devido à ameaça jihadista   haverá cerca de 60.000 deslocados na região norte de Moçambique em consequência dos ataques às aldeias. A diretora da Amnistia Internacional afirma: “É o culminar do trágico fracasso do governo moçambicano em proteger as pessoas nesta área volátil, chegaram a hastear uma bandeira num quartel militar.  A situação tem-se agravado pelo facto de o governo proibir jornalistas, investigadores e observadores estrangeiros de aceder a essa região”. Os jihadistas implementam a lei corânica na zona libertada pela Frelimo. Fizeram 350 mortos e 156.400 pessoas foram afetadas com perda de bens e obrigadas a abandonar terra e casas em busca de lugares seguros. As Irmãs Carmelitas e os Beneditinos também foram atacados, massacraram a aldeia de Xitati, assassinaram 52 jovens e decapitaram outros que negaram segui-los. Os jihadistas afirmam, “a população, queira ou não queira, vamos implementar um estado islâmico, porque isso é que está certo. Somos daqui. Invadimos para mostrar que o governo é injusto. Somos muitos no mato. O nosso alvo são os militares que consideramos porcos. Não colaborem com eles, senão voltaremos uma terceira vez e mataremos”. O governo é atacado por não estar à altura do desafio, tem fraca cultura de comunicação, deixa o país a ser alimentado por rumores de autismo e não pode ouvir os especialistas, falta de estratégia para lidar com o problema difícil de uma insurgência armada de cariz religioso. O Bispo fala de uma situação dolorosa, sete ou oito paróquias estão em situação dramática, não há celebrações, não há catequese, nada, e já há vários meses. Há algumas comunidades que há alguns meses não têm nada”. Que Deus ajude aos que podem atender às lágrimas e gritos do sacrificado Bispo de Pemba.

Dom José Garcia, primeiro Bispo de Porto Amélia (Pemba), em Moçambique.