Deitar a laje

Quando ouviu na televisão os homens do Governo a dizer que era preciso cuidarmos uns dos outros deu-lhe vontade de rir. Mas calou-se que a canalha já lhe tinha dito que era um homem amarrado ao passado. E se calhava a dizer: “Naquele tempo” então é que era um “Aqui-del-rei”, que era outra expressão mais ou menos proibida pelas gerações que se lhe seguiram.

Então ruminou para dentro, com esperança que se ouvisse cá fora. É que ele ainda era do tempo, sim daquele tempo em que as pessoas cuidavam umas das outras, em que essa era regra e não a exceção. E não era só nos dias de festa, cá nada. Era nos dias de aperto. Quando um vizinho acrescentava um quartinho ou dois à casa – naquela altura as casas eram uma espécie de puzzle em que se iam montando peças, conforme o dinheirinho que se juntava - e era preciso força de braços para deitar a laje e lá iam primos e tios, amigos e colegas de trabalho, novos e velhos. Era assim, uma mão lavava a outra, no fim um pratinho de dobrada e uns copinhos de vinho e estava tudo pago. Tudo pago não, porque ninguém faltava à chamada, quando era feita em sentido contrário. Na hora das vindimas, quer na apanha, quer no lagar, na morte do porco, no dia de roçar a erva para guardar para o gado ter o que comer no inverno ou a apagar o lume que vinha bravo com o vento nas tardes de verão e levava tudo à frente. Acabava sempre quase tudo da mesma maneira, com um pratinho de comer à frente e um copo de vinho para dar força.

“Quem não é para comer e beber não é para trabalhar”, resmungou em voz alta, mas não lhe deram troco, afinal já era habitual o avô falar sozinho.

E então deu uma gargalhada, lembrando-se dos dias em que iam fazer a cama a quem estava para casar. Isso é que eram farras até às tantas. Caiam-lhe as lágrimas dos olhos, quando se lembrou da invasão de formigas no quarto do Antoninho por causa do açúcar que lhe deixaram entre os lençóis bordados pela avó.  Ele dizia que foi isso que lhe fez o casamento doce que durou até ao último suspiro da mulher, que morreu de doença ruim nesses mesmos lençóis. Coitada da mulher.

- O que é que estás para aí a dizer, avô?

- Sabem lá o que é ultrapassar dificuldades em comunidade. Dizem que é preciso distanciamento social. Olha foi isso mesmo que nos trouxe até aqui.

- Lá estás tu com essas histórias.

- Sabes, filho, o que te faltou foi acartares uns baldes de massa e deitares umas lajes.

Sandra Cardoso escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas