Gaiola de cozinha

Mal se falou em pandemia e do iminente confinamento, muitos foram os que se apressaram a adquirir bens alimentares, temendo que a situação se prolongasse e que as garantias dadas pelas autoridades de que nada faltaria fossem apenas uma tentativa de evitar o pânico. Como seria tudo mais complexo, para não dizer impossível, se não possuíssemos os, hoje tão triviais, frigoríficos ou de arcas de congelação! Pensando nisso, lembrei-me de tempos idos em que era comum haver nas cozinhas uma salgadeira, para conservação a longo prazo, e uma gaiola para acomodar alimentos destinados ao consumo mais imediato. A gaiola era construída em madeira, de forma quadrangular e com as faces laterais cobertas por uma teia de rede, que permitia o arejamento dos alimentos e impedia que os insetos os alcançassem. Ficava suspensa do teto ou de um qualquer artefacto pregado na parede, longe do solo, a recato da curiosidade ou da gula de algum animal doméstico que se aventurasse cozinha dentro.

As gaiolas de cozinha são, atualmente, objetos de museu e soube da existência de uma, por gentileza do guardião (designação franciscana para o ofício de superior da casa) do convento de São Bernardino, em Câmara de Lobos. Neste convento, que data do século XV, viveu Frei Pedro da Guarda, a quem eram atribuídos poderes especiais que ali atraíam crentes das mais variadas proveniências. Não me alongarei, mas deixo-vos a sugestão para agendamento de uma visita ao local. Para além de vários pontos de interesse, poderão visitar a “cozinha dos romeiros”, onde os peregrinos, no seu longo caminho de regresso ou de ida para as festas da Ponta Delgada ou de outras freguesias, procuravam repouso e alimento. Esta cozinha, criada em 1747, tem vindo a ser mantida e aprimorada pelo responsável do convento que a vai recheando com objetos habituais nas cozinhas antigas, entre os quais a recém-adquirida gaiola.

Na minha infância, a gaiola da cozinha era pintada de azul e dividida em duas secções por uma prateleira que a minha mãe forrava com papel de seda, compondo-lhe a orla com um folhinho plissado do mesmo papel. Depressa aprendi a abrir-lhe o fecho para roubar do seu interior uma fatia da marmelada, aconchegada na taça de loiça, coberta com guardanapo orlado a renda de crochet ou, em junho, um punhado de cerejas às quais não conseguia resistir. Depois esgueirava-me dali e ia pôr-me à varanda a comê-las e a soprar os caroços, com toda a força, para o meio do jardim. Quando o verão avançava, era também na gaiola que encontrava o prato de frutos bojudos e melosos, colhidos, ao amanhecer, pelo meu pai, empoleirado na bebereira do quintal, em animado despique de assobios com os melros madrugadores. Hoje, tudo transformado em doces memórias.

Carmo Marques escreve
à sexta-feira, de 2 em 2 semanas