A Luisinha do Cambado e o ângulo morto da existência

Hoje não tenho cabeça para nada. Por isso, vou escrever sobre a atualidade mediática. Há dias, estava a caminhar na rua e apanhei um fragmento de conversa entre duas mulheres. O que elas disseram, para mim, foi um resumo perfeito do estado atual do mundo.

– A gente ainda vai-se sentir mais! – Afirmou uma delas.

A outra retorquiu:

– A gente não tá-se sentindo nada ainda!

Alguns dias depois, apanhei outra conversa num café, agora entre dois homens, que contribuiu para aperfeiçoar a minha perceção acerca do estado das coisas.

– Isto aqui está controlado – disse um deles.

O outro contrapôs:

– Isto está a vir de lá para cá!

Outra vez mais tarde, ao cruzar o Jardim Municipal, tornei a ouvir uma conversa, neste caso entre dois velhos, que enriqueceu grandemente o meu olhar sobre a atualidade.

– Os antigos já disseram tudo – disse um dos velhos.

O outro respondeu:

– Os novos não sabem nada.

No mesmo instante, passou por mim um casal de adolescentes e a rapariga, que tinha o cabelo liso e muito comprido, ia a dizer assim:

– O pxó é tudo!

O rapaz concordou:

– Bué da fixe!

Eu fiquei feliz por reconhecer a língua que esta gente usa para explicar o mundo – as mulheres, os homens, os velhos, os miúdos – mas confesso que ao tentar ler tudo de assentada, para melhor o compreender, tropeço na caligrafia e fico a balançar nas entrelinhas. Sinto até uma súbita vertigem. As palavras bailam, como pessoas vistas ao longe numa onda de calor, e tudo à volta rodopia. O meu pensamento desequilibra-se e cai desamparado em cima das letras, mas começa logo a esbracejar e a espernear, o meu pensamento, o meu pensamento tentando alcançar a margem da página onde o quotidiano se afirma e solidifica no vazio. Atualidade. Isto faz-me lembrar alguém que, no meio de uma tempestade, cai ao mar e depois começa a gritar e a nadar desesperado na direção do barco que se afasta cada vez mais, cada vez mais.

Não se percebe nada de nada e então vem-me à memória a Luisinha do Cambado, uma velha daquele tempo – não a conheci, mas ouvi falar muito dela quando era pequeno – uma velha que acalentava a miséria da vizinhança com o seu discurso apocalíptico e as suas visões do inferno e do futuro, que para ela eram exatamente a mesma coisa, o mesmo lugar, o sítio onde a raça humana seria totalmente aniquilada, o destino final para bons e maus, para todos.

– Os doutores e os padres sabem tudo, mas não adivinham nada – dizia a Luisinha do Cambado, sentada numa roda de mulheres a bordar. – O que vem a caminho não é da nossa conta – dizia ela, no meio do terreiro. – A gente só tem de trabalhar com a nossa tristeza – dizia a Luisinha do Cambado, com o tabaco na ponta da unha do dedo mindinho. – Andamos a construir máquinas para nosso conforto, mas o Senhor não usa máquinas para falar com a gente.

A Luisinha do Cambado suspirava profundamente, para captar a atenção da assistência, já meio ausente em devaneios.

– O mundo está perdido – dizia ela e depois avançava com a narrativa pormenorizada da destruição da ilha, dos lombos e lombadas, fajãs e achadas, poios e levadas, tudo e mais alguma coisa, quebradas e cabeços, caboucos e azinhagas, becos e calçadas, tudo a eito, veredas e ribeiras, casas e poços, gente e bichos, sobretudo gente.

E isto, meus caros, é tudo o que tenho a dizer sobre a atualidade mediática.

Posso ainda acrescentar outra conversa que ouvi aqui há dias e que espelha bem o mundo atual.

Alguém disse:

– As pessoas especiais brilham.

Outro alguém respondeu:

– Todas as pessoas brilham.