Arma de descompressão

 

“Kill them with kindness”. Ou em bom português, “mate-os com gentileza”.

Não sei quem é o autor da frase, nem sei onde a li pela primeira vez. Lembro-me apenas de que era referida como um conselho de alguém mais velho a uma jovem. E que voltei a vê-la outras vezes nos meus ecrãs, no pequeno e no grande.

Parece-me que a frase pode ter duas interpretações: ‘matá-los gentilmente’ e ‘matá-los com recurso à gentileza’.

Como tenho uma forte veia ruminante, ando a processá-la há algum tempo e insistindo na segunda interpretação: como é que a gentileza pode ser uma arma? E se o for, como é que se usa? Qual o seu alcance e precisão?

Sendo igualmente forte a minha veia empírica, possuo já uma vasta experiência de secar os burrinhos que deram na água. Nada que me incomode, acho sempre que há algo a aprender com essas molhadelas.

Assim, resolvi que ia ver como era isso de ‘matar com recurso à gentileza’ quando surgisse uma oportunidade.

E ela surgiu numa conversa em âmbito profissional, quando notei que o meu interlocutor falava de um lugar de superioridade: ‘o lugar de quem tem razão’. Conhecem aquelas situações em que alguém tem de facto razão mas o modo como a apresenta faz com que a perca? Assim se passou esta conversa.

O tom, o discurso, até a linguagem corporal, tudo naquele senhor indicava que estava interessado apenas em provar que tinha razão, antes mesmo de alguém ter sequer duvidado disso.

Mas naquele dia eu estava armada.

Quanto mais alto ele falava, mais eu baixava a minha voz, ao ponto de no fim da conversa ele já me pedir para repetir algumas frases.

Desde o início intuí que era o tipo de pessoa que vinha determinada a falar muito mais do que a ouvir. Então, cada vez que ele me interrompia eu deixava que terminasse tudo o que tinha a dizer e só depois lhe respondia.

Usei e abusei de palavras como ‘obrigada’, ‘por favor’, ‘se concordar’ e ‘se me permite’, sempre acompanhadas de uma expressão serena. Dei-lhe toda a minha atenção e estive sempre focada unicamente na nossa conversa, sem pressas nem tentativas de adiar o assunto para outra altura.

Houve um momento em que lhe perguntei o que gostaria que acontecesse relativamente ao caso que expunha, o que é que o deixaria agradado? E foi aos 90 minutos que o jogo virou, quando ele confessou que “não sabia”.

Nenhum de nós precisou verbalizar, mas ambos sabíamos que o que estava em causa era que a mesma pessoa se mantivesse no ‘lugar de quem tem razão’. Como, metaforicamente, nunca o tirei de lá nem quis substituí-lo... matei a discussão com gentileza (e muita paciência) e tudo acabou bem. Bem melhor do que começou.

Para primeiro teste não correu nada mal.

Maria Gabriela Vieira escreve

à quarta-feira, de 2 em 2 semanas

 

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