O sonho do fim da história

O doutor fechou o consultório às 12 horas. Subiu ao primeiro andar e reparou no relógio de parede, cujo tiquetaque quebrava subtilmente o silêncio da casa. É um relógio de pêndulo de 1847, de fabrico norte-americano, que ele encontrou na praia, no ano em que chegou à ilha. O doutor ficou deslumbrado com o náufrago. Levou-o para casa e tratou dele com muito cuidado, de modo que passadas três décadas o relógio continua vivo, polido e luminoso, o belo pêndulo balançando para cá e para lá sem parar.

– Doze e catorze... – Murmura. – Estou a ficar cada vez mais lento, meu amigo. Há trinta anos, encontrávamo-nos às doze e dois em ponto.

– Tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque – diz o relógio.

– Eu sei, meu amigo, eu sei... – Suspira o doutor.

Sentou-se na poltrona e sentiu a frescura do cabedal invadir-lhe as costas. Uma brisa agradável entrava pela janela, afagava-lhe o cabelo branco e ralo, percorria também as rugas do seu rosto, descia pelo pescoço, atravessava a camisa e espalhava-se pelo peito. Fechou os olhos.

O doutor almoça todos os dias no restaurante da vila às 13 horas e 15 minutos e no tempo que vai entre o encerramento do consultório e a hora do almoço dormita na poltrona ao som do relógio e das memórias. Hoje, porém, apercebeu-se de vozes em casa, pessoas a falar no quarto ao lado. Ficou deveras surpreendido, mas estava incapaz de se mexer, tão mole e cansado. Ficou simplesmente a ouvir.

– Dizem que ela, depois daqueles acontecimentos, foi viver para uma casa com vista para o mar – conta o narrador.

– E depois? – Pergunta o ouvinte.

– Depois dizem que ela estende os olhos todos os dias sobre o oceano, como se ele fosse a sombra da sua alma.

– Ahhh, mas são poetas, os que dizem isso!

– Dizem que ela enfeitiçou a casa com objetos trazidos dos cinco continentes e todos os que lá entram perdem-se em devaneios sem fim, com a mesma intensidade que assiste às partidas e chegadas.

– Hummm... Que quer dizer isso de partidas e chegadas?

– Quer dizer que ela ama o que está sempre a partir e a chegar – explica o narrador. E prossegue:

– Mas também dizem que, de vez em quando, ela desperta em lucidez e percorre com dor o contorno inteiro de uma ausência sentida.

– Ahhh, pois, aquele grande amor... – Comenta o ouvinte.

– Isso mesmo.

– E ele? O que aconteceu com ele?

– Bom – diz o narrador – depois daqueles acontecimentos, dizem que ele viajou para sul, dizem que cruzou mares e continentes e foi tão longe que lhe perderam o rasto.

– Ninguém sabe onde está?

– Dizem até que se matou. Mas também dizem que continua a viajar, como quem quer esquecer os caminhos percorridos.

Sentado na poltrona, o doutor dá-se conta de que aquela história lhe encheu os olhos de lágrimas, gotas pesadas escorrem agora na sua cara. Então, levanta-se e arrasta-se para o quarto, para ver quem fala assim da sua vida. Antes de entrar, olha para o relógio e vê o pêndulo imóvel.

– Morreste, meu amigo! – Diz, com tristeza.

Vira-se para o quarto e vê um papagaio cinzento poisado na mesa, a fumar um cigarro, e um cão preto e branco sentado numa cadeira de perna cruzada, com o maior dos à-vontades.

– Olha, afinal ele está vivo! – Diz o cão, espantado.

– Este é o gajo da história? – Indaga o papagaio, perplexo.

– É este, sim! Olha como está velho, meu Deus! – Realça o cão. E, virando-se para o doutor, diz:

– Você deve procurar o fim da história. Fazia-lhe bem.

Depois, o cão começa a ladrar e o papagaio a rir e o doutor estremece no vasto cadeirão. Lá fora, um cão está a ladrar e um papagaio imita-o de forma alucinada. Dentro de casa, o velho amigo diz-lhe, tranquilo:

– Tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque.

São 13 horas e um minuto, quase dois.