Como desenhar um mapa

Era um fim de verão. Um fim de verão quente. Com nuvens altas e uma impossibilidade certa de chuva. A cidade era quase desconhecida para mim. Havia apenas a memória breve e difusa de uma passagem já sem cronologia definida.

Àquela hora, a estação estava quase vazia. O comboio chegou com uma precisão horária irrepreensível, quase humana. O comboio era uma espécie animal que transportava no seu mecanismo a minha apreensão, aquele frio por dentro que nos transporta à sensação do baloiço da infância, quando braços nos atiram contra o ar e sabemos que vamos regressar ao chão, mas essa certeza não desabita de nós o susto.

Era nesse estado que me encontrava, atirada ao ar e sabendo do chão, mas, ainda assim, aquele susto da possibilidade de uma queda ou de uma suspensão infinita.

Mas o comboio cumpria o horário e tu estavas lá, como tinhas prometido. De camisola branca, como tinhas prometido. Com um sorriso de uma felicidade plena e com aquele abraço que acolhia sem reservas, como eu ainda não sabia.

Recebias a minha presença como se ela tivesse sido coisa natural a vida inteira. Talvez pela primeira vez, senti que alguém estava comigo por completo. Senti que não havia outro lugar nem outro tempo que quisesses habitar que não fosse aquele momento da minha chegada à cidade que tu conhecias e que, nos meses seguintes, havias de assinalar para mim, construindo o mapa de afetos e de caminho para casa.

Dávamos, então, o primeiro traço de uma cartografia na qual acreditámos contra todas as evidências. Até contra a razão e o destino que se anunciava implacável. Mas isso seria mais à frente nesta história.

Naquele dia, iniciámos a cartografia pelo caminho até casa, depois pelos caminhos da casa e do jardim. As mãos. Tão certas como tu já sabias, de um tempo que era um ti essa sabedoria plena.

As mãos pela tua cabeça e pelo que crescia lá dentro como uma armadilha que se tornaria clara tempos depois. Mas, novamente, esta narrativa não é deste tempo. Estamos apenas a iniciar o traço do mapa.

E como desenhar um verdadeiro mapa sem uma história? E se for uma história que ela seja terrível e que abra caminho a uma felicidade. Tu sabias e foi assim. Contaste-me uma história terrível, mas desenhaste na minha pele, pelo toque e pela ternura, o fim feliz que até as histórias terríveis podem ter. Mesmo que não para sempre. Que isso é fim de outros contos e de outras idades, que já não eram a nossa, embora se parecessem tanto com a nossa.

Depois? Depois a tarde passou com a rapidez própria dos relógios ou das histórias. Mas o desenho inicial do mapa já estava concluído. Seria, por isso, impossível não regressar. A tua mão e a despedida fizeram necessário e urgente o regresso.

Um mapa desenha-se em muitos tempos, mesmo que conduza a um labirinto quando lhe falta a mão do mestre.

Só queria que soubesses que, meses depois desta história, é no centro do labirinto que estou. E no centro do labirinto há um baloiço, imagina tu.  E a tua mão, aquela mão primeira do jardim, lançou o baloiço comigo dentro ao ar. Ainda não aterrei. A suspensão infinita espera a tua mão para me trazer de volta ao chão. Vens?